O blogger é atualizado de acordo com as batidas do meu coração. É um prazer tê-los comigo.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Bissexualidade - lição de preconceito em rede nacional

Confesso que, constantemente, preciso vigiar meu "ataque" de preconceito em relação às novelas, até porque, é incoerente com o fato de que, vez por outra, estou ali, em frente à TV. Estreias e finais de qualquer uma delas, desperta minha curiosidade, talvez  por acreditar que todo começo encerra em si um final, e ficar curiosa para conferir, na ficção, essa poção de vida real.
Não dá para falar, simplesmente, que televisão é uma péssima opção e que toda a programação é um desserviço à humanidade porque não é tão simples assim. Aliás nada é tão simples assim. A simplificação é uma forma primária do pensamento, e tento fugir dessa "armadilha", que reduz qualquer fenômeno a uma relação de causa e efeito, bom e mal, preto e branco, homo e hetero,  pobre e rico, culto e ignaro, pois é justamente daí que nasce o preconceito. Ao simplificar acolhemos a deficiência no nosso pensar,  ficamos privados de conhecer a verdade do outro, e, reagimos àquilo que pensamos entender, mas na grande maioria das vezes, não entendemos.
No capítulo de ontem, Matheus Solano deu um show de interpretação, e os autores e roteiristas, um show de preconceito. Em uma mesma cena, transbordou intolerância e falso moralismo.
Um marido apavorado ao ter sua bissexualidade descoberta pela  esposa, e uma esposa perplexa, indignada, revoltada, possessa, como ficam a maioria delas quando traídas. Independente do meu conceito de traição, em tese, sei que é assim que funciona. Até aí tudo bem. Ou, pelo menos, tudo como costuma ser. Ocorre que, frente ao diálogo ali proposto, a esposa passou de  vítima de uma traição a vítima de uma hecatombe nuclear, ao que questiono: só porque a traição do marido se deu com um homem e não com uma mulher? Esse diferencial torna a traição mais grave? Potencializa a dor? Definitivamente, não entendo... Traição dói quando se sente que o amor foi traído, e pelo que eu saiba amor não tem sexo. Ou tem?
Antes daquele marido que, em absoluto martírio e desespero, se assumia bissexual perante a esposa, estava um ser humano completamente perdido, pedindo socorro. E essa esposa, antes de ser a vítima de uma traição (a meu ver, uma traição como outra qualquer) não deveria acolher a dor do outro conjuntamente com a sua?  Ou alguém tem a rigidez de pensar que aquele que trai não sofre? Ainda mais quando ele próprio se pune e se envergonha diante do situação. Comum que ela se debatesse, gritasse, chorasse, afinal, ela foi traída, isso não está em discussão. Mas a conotação conferida a cena é a de que ela fora duplamente traída, assim mesmo - como um homicídio duplamente qualificado - uma traição e, como agravante, outro homem.
Foi desperdiçado a chance de dar uma bela lição de generosidade, compreensão e amor ao próximo em horário nobre, e ao invés disso, vimos uma aula de preconceito. Deplorável... 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Sei que chegou a hora de sair

Me encolhi perante o mundo nesse último ano. Deixei de interagir com a realidade. Vivi no mundo das ideias. Disse mais “nãos” que “sins”. Perdi momentos. Me afastei de tudo. Mas foi um aprendizado, talvez, dos maiores que tive na vida. Sinto-me mais humana, mais tolerante, mais generosa. Percebo as pessoas com outros olhos, como se todos merecessem sempre uma chance, e merecem, mas saber é diferente de sentir. Eu já sabia, mas não sentia. Foi um período de solidão, e quando percebi, transformei-o em solitude - um isolamento voluntário onde busquei a paz em mim mesma. Consegui. Aos poucos vou redescobrindo que ter pessoas em volta de mim é como edredom no inverno. Chega de solidão. Me deixei de lado, só aguardando o que poderia ser. Não foi. E, mesmo certa de que certezas não existem, me arrisco a dizer que nunca será.
Queria poder fazer o parto de algumas frustrações. Mas não quero dar vida a sentimentos  que não levam a lugar algum. Descobri mais uma vez que não sei nada, e que, se não conheço nem mesmo a mim, não posso ousar acreditar que conheço os outros. Não conheço, mas ainda assim, estranhamente assim, me reconheço em alguns. 
Meu coração precisa parar de sair do peito. Tento acolher quem nem pediu abrigo. Quero curar dores alheias, que acabaram por se tornar mais minhas que do outro.
Uma tempestade se anunciava. Não dei atenção... não fechei portas nem janelas e ainda achei que meu jardim interno, agradeceria a terra molhada. Mas nada floresceu. Ou melhor, claro que floresceu... sempre floresce. Acho que não foi a flor que eu queria. Só isso. Me molhei toda e ainda tenho frio. Coloco blusas, cubro os pés, acendo a fogueira, e... nada!
Queria me esconder. Estou com raiva de mim. Dos meus olhos ternos. Parece que vejo o que ninguém vê. Acredito no que ninguém crê. E no fim, de nada adianta.
Não será a primeira vez que preciso me reinventar. Quando você adia mudanças, a dor vem e faz o serviço. Novamente, vou mudar de lugar, de pessoas, de projetos. Vou abandonar vícios. Vou destrancar a porta. Chegou a hora de sair. Ainda que sem vontade, ainda que tentada a aguardar mais um pouco, sei que chegou a hora de sair.

 

domingo, 19 de maio de 2013

O "bom do amor" não foi feito pra durar

Continuo me surpreendendo com o fato de que a verdade de ontem pode ser a mentira de hoje e vice e versa. Vejo isso por mim mesma. Eu me arrepiava quando ouvia alguém dizer que amores não foram feitos para durar. Na verdade, nunca fui de ter certezas, e ainda assim, as poucas que tive perderam-se. Ou perderam-se nos fatos, ou perderam-se de mim. Ou me perdi nelas ou me perdi delas. Sei lá. O amor está entre elas. Eu ousava ter algumas certezas acerca dele.
Antigamente, muito antigamente, quando eu ainda lia Pollyana Moça, eu jurava que todo e qualquer "eu te amo" era dito através do coração. Com o tempo percebi que não. Que "eu te amo" poderia também ser dito para atender a algum tipo de conveniência. Odiei isso e desejei pena de morte para aqueles que desrespeitassem tanto assim o amor. Até entender que "eu te amo" também encerra em si, certa relatividade. Li muito, discuti outro tanto, pesquisei ainda mais, para entender que só os anos me trariam algumas micros e incertas respostas, e, ainda por cima, mergulhadas em subjetividades. Claro. Não desejo mais a pena de morte simplesmente porque o "eu te amo" de alguém tem um significado diferente do meu. Pois é... os contos de fadas não mencionaram que até mesmo os príncipes encantados tinham um "eu te amo" próprio. Todos temos. Ninguém pronuncia um "eu te amo", sem acreditar, pelo menos naquele instante, que ama. Isso pode ser visto por alguns como algo leviano - declarar-se de porte de um sentimento que já trás embutido em si promessas imensas, enquanto ainda não se tem certeza. Mas, partindo do pressuposto de que certezas não existem, e promessas são apenas promessas, tudo fica mais fácil de ser, senão compreendido, pelo menos aceito.
Chego aos poucos a uma conclusão estranha. O amor dura sim. Mas o bom do amor (como dizia Cazuza), aquele bom mesmo! que transborda no momento daquele "eu te amo", esse não foi feito para durar. Ninguém suporta a intensidade delirante de um sentimento, esse tipo de emoção tem o tempo contado. Caso contrário não sobrevivemos. Sinto muito cinderelas! 
Não se pode prender o que é fluído. Amor é vento. Ao ouvir um "eu te amo" pronto! Os sonhos já se formam lá no "sim, eu te aceito como meu legítimo esposo". O bom do amor não dura até lá. Não foi feito para ser enquadrado. Vive de cenas. De episódios não escritos. De momentos. De suspiros. Da expectativa da próxima vez.  E, então, o "eu te amo" era só isso. Ou tudo isso. Depende de quem vê. Depende de como vê. Depende do que se quer ver. No fundo eu nunca quis a calmaria do amor que dura, talvez por nunca ter acreditado nessa possibilidade. Talvez por acreditar que amor é liberdade incondicional. Hoje, estou mais de Ferreira Gullart, mas pode ser que um dia eu mude, outra vez, quem sabe...
"O verdadeiro amor é suicida. O amor, para atingir a ignição máxima, a entrega total, deve estar condenado: a consciência da precariedade da relação possibilita mergulhar nela de corpo e alma, vivê-la enquanto morre e morrê-la enquanto vive, como numa desvairada montanha-russa, até que, de repente, acaba."

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Um recadinho para você.

 
A moral do "rebanho" valora sempre o outro como ruim e "nós" como bons.
Nietzsche dizia que o rompimento com o padrão moral era a única forma de nos livrarmos dos conceitos errôneos que a sociedade nos "enfia" de bem e mal para que, livres, possamos descobrir, através da consciência, e não da obediência,  os verdadeiros valores que nos motivarão a superar nossos instintos e colaborar para uma humanidade autenticamente voltada para o bem.
Tenho sentido "na pele" que estamos cada vez mais distantes disso. Poucos desenvolvem a consciência, preferindo encostar, confortavelmente, na obediência divina e amarrando seus instintos como se fossem "bicho bravo", esquecendo-se, que um dia, sempre escaparão, fugindo do controle.
Há um ano eu tenho sido vítima de "instintos fora do controle" de pessoas que se auto intitulam do "bem", onde a palavra Deus é citada em profusão, funcionando como escudo para sua insanidade. Abri as portas da minha vida para uma pessoa, e junto com ele, sem que eu convidasse, vieram outros elementos desconhecidos para mim. Através de suas presenças impostas, conheci o que seriam sanguessugas humanos. Aos poucos foram sugando minha paz. Invadiram minha casa, meus filhos, meu telefone, meus e-mails, meu blog. Ontem minha irmã me perguntou porque eu não encerrava o blog. Quase cai dura! Jamais! Zumbis nada mais são que sombras de pessoas vivas, infelizmente têm o poder de perturbar, mas nada mais que isso. Não entendo como pessoas visivelmente articuladas desperdiçam  vida, ou melhor, a energia da vida em busca do controle de outro alguém... Todos temos uma vida ativa - trabalhamos, criamos filhos, estudamos, temos interesses, participamos de alguma forma da comunidade em que vivemos, tudo isso engrandece, enobrece, nutre, isso é o bem em nós. E, nos momentos de ócio onde pode-se ler um livro, olhar a lua, andar de bicicleta, ouviu música, essa mesma pessoa de vida tão ativa, prefere viver a minha vida. É isso... Existe alguém nesse mundão que quer ser eu! Isso é impossível, meu bem... Podemos ter passeado pelos mesmos lugares, entrado e saído pela mesma porta, esperado no mesmo ponto, olhado nos olhos da mesma pessoa, sentido o mesmo toque, até sonhado os mesmos sonhos, mas apenas isso... Nada mais que isso nos aproxima. Eu não me considero o bem e você o mal e nem vice-versa. Não tenho padrão moral justamente para não incorrer em erros terríveis, portanto não julgo, apesar de, pelas suas palavras tão "doces" ver o quanto me julga. Não tenho culpa se suas certezas escorreram por entre seus dedos. Boa oportunidade para que você aprenda a não ter certezas, porque elas não existem. Nunca existirão. Por mais maníaca por controle que você seja, no fundo você não controla nada. Mas seu jogo é altíssimo! Não sei se tem cacife para bancar. Cuide-se.
Eu estou trabalhando em uma monografia cujo tema tem exigido de mim mais do que eu poderia imaginar, acaba de ser descoberto um tumor em minha mãe, tenho uma filha de 9 anos que sente uma falta visceral do pai que foi embora há um ano( e já que você quer ser eu, saiba que eu nunca perturbei a vida dele pelo fato de nunca tê-lo considerado minha posse, aprenda isso), tenho um filho de 17 anos que mora sozinha em outra cidade a quem preciso dar constante assistência, tenho um ensino médio inteiro que me aguarda todos os dias para as aulas de filosofia que ministro com total comprometimento. Portanto, gostaria de pedir-lhe encarecidamente na presença dos meus mais de 300 seguidores que siga sua vida e, esqueça o dia, em que, de tanto investigar, finalmente você me encontrou. Deixe que eu possa abrir meu blog e ter o prazer de ler e responder as dezenas de pessoas que mandam desabafos e comentários tão pessoais que opto por nunca postar, porque a dor alheia não precisa de plateia. Não suporto mais abrir meu blog e me deparar com seus recados que declaram uma mente obsessiva pela posse e controle. Se você fosse uma leitora eu te aconselharia a se tratar, para que possa resgatar sua vida, sua paz de espírito, para que possa aprender a trocar, a respeitar, a dividir a vida com alguém, a se dar valor, para poder valorizar o outro. Enfim, você precisa aprender sobre o amor, porque dele, você não conhece nadinha.

 

domingo, 12 de maio de 2013

Mães, filhos e destino

A sociedade tenta, o tempo todo,  padronizar nossos sentimentos e reações. Assim, por exemplo, é preciso jurar de pés juntos que a maternidade está acima de tudo e todos, sob o risco de ser julgado e condenado ao fogo eterno, por não ser  grata tempo integral, a esse maravilhoso presente de Deus. 
Minha filha chegou em casa penalizada porque a coleguinha de classe lhe contou, chorando, que a mãe joga fora todos os desenhos e bilhetes que ela lhe dá. Eu expliquei que a mãe dela estava com um bebê novo em casa, e ainda trabalhava fora, e deveria estar sem tempo e que, provavelmente, fazia isso sem prestar a atenção. Ela então, me pediu que comprasse uma pasta como a que eu tenho para guardar essas coisas, para dar a mãe da colega e, assim, resolver o problema. Cá para nós, tem coisa mais chata do que aquelas dezenas de desenhos de corações que eles fazem para nós sem parar? Não. Mas quem assume isso? 
Fácil julgar, mas poucos pensam em quantas mães tiveram suas vidas completamente modificadas pela chegada dos filhos, tenham sido esses, planejados ou não. Viram seus projetos futuros virarem pó. Precisaram trocar viagens e estudo por fraldas e mamadeiras. Não puderam viver um amor porque não tinham com quem deixar o bebê. Muitas fizeram o contrário, e para não modificar sua vida, não ver projeto virar pó, não abrir mão de um amor, levavam a criança a tiracolo, criando-a sem estrutura, segurança, e  cuidado necessário... Qual escolha tiveram essas mães? Se abrem mão de realizar os projetos ou viver aquele amor para cuidar do filho, chorarão suas frustrações sobre o filho, mil vezes, ficarão arruinadas emocionalmente e o futuro, provavelmente, apresentará uma mãe doente em todos os sentidos.  Se deixam os filhos sob os cuidados de alguém, para seguir em busca de um amor, de um sonho, de um projeto, já estão condenadas, antes de tudo por si mesma, e que ninguém tenha dúvida disso. Qualquer um desses caminhos nascem de escolhas que, na verdade, nada mais foram que faltas de escolha. Pois em qualquer um desses caminhos,  no resultado final teremos filhos rejeitados e mães culpadas.
História já traçadas, onde as poucas escolhas nascem sempre a partir dos mesmos recursos emocionais e sociais. Filhos juízes de suas mães condenadas. Faltou amor? Não acredito de forma nenhuma. Sempre há  amor no coração de uma mãe, mas é preciso saber o que esse coração viu, sentiu e viveu enquanto essa mãe ainda era filha, porque é assim sempre... e assim será, sucessivamente. 
Quando eu reverencio as mães, é a todas elas, as que como eu, puderam cuidar de seus filhos com  total prioridade, e àquelas que não puderam fazer assim, porque não tinham, como eu, recursos internos e externos que lhes possibilitassem equilíbrio, maturidade, desprendimento e tranquilidade. Enfim, amamos da mesma forma, tanto eu quanto elas, o resto, foi coisa do destino. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

"...nem sempre posso querer aquilo que quisera querer"

Disse o filósofo Waldo Emerson que "O que está por trás de nós e o que está diante de nós são coisas pequenas comparadas ao que está dentro de nós".
Questionamentos pautaram minha existência, e não imagino como teria sido, se assim não fosse.  Minhas primeiras angústias surgiram, a partir, de um senhor muito idoso que carregava uma imensa cesta de vime nas costas, vendendo biscoitos. Aquele peso, pesava em mim, e mesmo nos dias em que não o via, ele me acompanhava. Ele passou a morar em mim. E muitas vezes, brincando de boneca, eu via aquela cesta imensa em minha imaginação, e ela vinha acompanhada de  porquês - porque tinha que ser assim, porque justo aquele velhinho e não o meu avô, ou o meu vizinho... Conjuntamente veio a descoberta da infinitude do mar, e uma inquietação latente tomou conta de mim, principalmente pelo fato de ninguém conseguir me explicar como alguma coisa poderia não ter fim; e  só fui descobrir, sozinha, anos depois, que simplesmente há coisas que não são passíveis ao entendimento humano.  No primeiro fato descobri o sentimento de inconformidade e indignação, no segundo, a constatação da efemeridade do ser e insignificância perante a Criação. Me aproximei de Deus exatamente nesses dois momentos - com mais ou menos 6 anos de idade. Eu amadurecia, definitivamente. Há caminhos que não têm volta, por mais custosos que sejam, e amadurecer é um deles. Sem saber despertava em mim, a tal da consciência. Continuei assim a vida toda, inconformada, indignada, buscando entender a Criação, Deus, o Universo. A inquietação me levou primeiro a contemplação e a angústia, depois à ação - o caminho exato da filosofia antiga até a modernidade. Angustiar-se perante o desconhecido, contemplar para abstrair e, finalmente, racionalizar o que for possível, para agir dentro de um contexto, quase sempre limitado.
Por longo tempo acreditei que pudesse transformar o que me cercava, não pude. Fiquei mais isolada que nunca, com um sentimento eterno de inadequação perante aqueles que haviam me apresentado o mundo, mesmo que de maneira "torta". Depois encontrei meus guetos, fui feliz, mas acho que de certa forma, improdutiva. Descobri que o coletivo disfarça a inquietação interna. Todas as religiões que experimentei me desviaram do foco, me distraíram do que era fundamental. Em cada uma delas, mais do que perdi tempo, perdi-me no tempo.  Na minha concepção, religião para ser seguida com louvor e obediência precisa, antes de tudo, de um indispensável sentimento de culpa. Disfarçadamente ainda vendem-se indulgências por aí, e, convenhamos, se vende é porque há quem compre. É na solidão que tudo acontece para mim. O autoconhecimento é a chave para o despertar da minha consciência, é onde estamos aptos a viver, verdadeiramente, sem intermediários, o imanente e o transcendente.
Sozinha me reconheço no outro. Sinto o frio alheio. E percebo que  dar o cobertor não é nada, perto do ato de cobrir. A humanidade é quase inerte, ainda não estamos despertos, fazemos quase nada, talvez porque como disse Schopenhauer: Eu posso fazer tudo o que eu quero, mas nem sempre posso querer aquilo que quisera querer.
Ainda somos pouco... muito pouco

domingo, 5 de maio de 2013

A loucura pode morar ao lado

Tudo que me cerca vira fonte de interesse e pesquisa para mim. Eu não perco a chance de estudar atitudes e comportamentos. O ser humano me intriga profundamente. Só nessa semana virei às madrugadas completando a leitura de três livros da autora Ana Beatriz Barbosa Silva - Mentes Perigosas, Mentes Inquietas, Mentes e Manias. Fonte de um aprendizado prático sobre loucura, neuroses, obsessões, enfim, várias situações que convivi de perto, outras que assisti de longe no decorrer da minha vida, outras que protagonizei, e ultimamente, uma da qual tenho sido vítima há quase um ano. E a realidade indiscutível é - a loucura pode morar ao lado. Esqueça aqueles temidos assassinos em série... Sangue, cadeia, júri popular. Esses não matam a vítima estrangulada. Matam a confiança, matam a paciência, matam o respeito, matam a paz.
Essa pessoa pode ser aquela que mente compulsivamente para você, ou que vigia todos os seus passos, sistematicamente, regulando seus horários, investigando seu celular, assumindo um personagem, se fazendo passar pela irmã mais velha, no intuito de arrancar informações da sua secretária. Não há limites para que atinjam o objetivo - seja ele descobrir se o marido tem uma amante ou impedir a promoção de um colega de trabalho. Em muitos casos, principalmente no amor, pode ser aquela pessoa obsessiva que vai lutar sem o mínimo escrúpulo por aquele que ama... Continuará não sujando as mãos com sangue, mas sujará tudo que está em volta com suas manipulações. Finge, troca de máscaras, inventa nomes, cria falsos laços de amizade, enfim, monta um circo dos horrores. Diferente do assassino que sempre deixa uma pista e é descoberto e será preso, esse tipo raramente é desmascarado... Conhece o ponto fraco dos que lhe interessam, só age na hora certa, com as palavras e atitudes absolutamente corretas, tornando-se em um passo de mágica, a "pobre coitada da situação" , imputando culpa e remorso nas suas "presas". Enfim, estão salvos. Todos nós, temos alguns desses traços, mas temos um filtro que nos indica a hora de jogar a toalha antes de prejudicar as pessoas. Esses não. Esses acham que podem ir sempre mais e que se dane os outros.
Quando eu era jovem havia em minha cidade um barzinho da moda onde meu pai me proibira, junto a minhas irmãs, de frequentarmos, e ele passava para lá e para cá de carro, nos vigiando, quando menos esperávamos. Morríamos de medo e ninguém arriscava desobedecê-lo. Eu era terrível, sempre tive dificuldade de "ser obediente" e um dia bolei um plano - ligaríamos do orelhão (naquela época nem se sonhava com celular) e se o telefone de casa atendesse, poderíamos ficar no bar pelos 15 minutos seguintes, que era o prazo para que ele saísse de casa, e chegasse até lá. Deu certo nas três primeiras vezes. Um dia, ligamos e estava ocupado, fomos tranquilas. Quando pisei no bar, meu pai estava lá dentro, de braços cruzados, e calmamente me disse: "tirei o telefone do gancho porque desconfiei de você, sempre a "cabeça" de tudo. Não tente de novo, você não tem jeito para isso, pois é preciso ter dentro de si, mais sombra do que luz, e esse não é o seu caso". Um mês sem sair de casa foi o meu castigo, minhas irmãs saíram ilesas, afinal, o plano tinha sido assumidamente meu. Nunca esqueci esse conselho. Apesar de que, durante a vida, tentei outras vezes manipular situações, mas em todas elas, me dei mal. Sempre na adolescência. Sempre para enfrentar meu pai. Como não podia vencer, aprendi a me proteger, então, reconheço de longe os manipuladores e raramente me engano. Não estou imune a eles, claro que não, mas sou uma presa mais difícil. Reconheço aqueles que se utilizam da manipulação como forma de "sobrevivência", mas ainda assim, têm uma boa alma, e reconheço aqueles  que pautam sua conduta dentro de uma moral ilibada, são tidas como boas pessoas até o momento em que algo foge do  seu controle, e a partir daí, "moral, que moral?" Detesto é quando vejo situações onde está "claro como a luz do sol" que um está manipulando com tamanha astúcia e competência, que o placar já marca 10 x 0, e o outro não percebe... Eu vivo algo assim, onde bastava um click meu para tirar a máscara e ajudar a virar o placar, mas lembro do que meu pai disse "é preciso mais sombra que luz", e me encolho. Até porque, é preciso ser responsável por certas escolhas, e entre elas está decidir em que pessoas confiar 
E àqueles que não leram nenhum dos três livros, recomendo Mentes Perigosas, para que menos pessoas sejam arrastadas pela correnteza de mentes aparentemente inocentes, corações aparentemente nutridos de boas intenções, posturas forçosamente éticas guiadas pela moral social e religiosa, mas que, se desfazem como bolha no ar perante uma situação que possa lhes atrapalhar. E o controle vira descontrole, e tornam-se mentes altamente perigosas que, como um trator, vão arrastando para longe, tudo que possa ser visto como um empecilho para seus planos obsessivo de controle e posse.

terça-feira, 30 de abril de 2013

A vida imita a arte

Continuando com as novelas, ainda me surpreendo com a propagação do "vale tudo por amor". Ou melhor com o "vale tudo para se conquistar ou reconquistar um amor". Está no ar, em rede nacional,  uma mulher que simula uma agressão física levando o "objeto" amado aos tribunais, e um belíssimo homem que arma uma cilada para seu amigo de infância, condenando-o à prisão por 7 anos. No primeiro caso foi uma vingança pelo amor não correspondido, no segundo, uma armação para  conquistar a mulher amada por ambos.
Partindo do pressuposto de que a vida imita a arte, certamente isso existe em larga escala por aí. 
Há uma dose de loucura providencial ao amor. Quebramos regras e dogmas. Revemos conceitos e certezas. Rompemos barreiras geográficas, culturais, sócio econômicas, religiosas. Mas não podemos invadir. Para sempre haverá um espaço que é meu, para sempre haverá o espaço do outro. Eu não passei a existir a partir do encontro com esse outro que amo. A existência do outro não se deu a partir da descoberta do seu amor por mim. Há histórias anteriores a esse encontro. Há personagens mais antigos no enredo que merecem consideração. Não há justificativa possível para o desrespeito.  Até entre facções existe uma ética particular e, mesmo que sejam altamente questionáveis (e são) o fato é que existe um código de conduta. Na guerra todos conhecem as armas, conhecem o inimigo, o campo de batalha. Mas quando a luta é pela obtenção do ser amado é um vale tudo. Sem regras. Com armas de efeitos devastadores, usadas em campos desconhecidos, por um inimigo completamente disfarçado até o momento do ataque. Manipulação, mentira, armações e armadilhas. Um está desavisado e o outro o pega pelas costas, sem o mínimo pudor, afinal, "é por amor". Eu já fui vítima dessa guerra sem jamais ter participado dela. Fui pega sorrateiramente, enquanto estava distraída, olhando a lua, como todo apaixonado. Nunca entendi. Nunca revidei. Nunca me prestei a esse papel porque esse ato insano de "salvar o amor" a todo custo, só ocorre porque já se está insano, a ponto de não mais amar a si próprio. E, convenhamos, ninguém salva o amor, ninguém perde o amor, ninguém conquista o amor. No amor se ama e é amado. Fim. Para mim fica essa lição.
Não há armas no amor, um lado pode armar seu ataque com um canhão e não passar nem de raspão. Desperdiçando munição, sem jamais acertar o alvo.  Enquanto o outro lado, pode acertar a alma e coração, apenas com a sua existência.
Não creio jamais que exista qualquer luta em nome do amor. E se há, são todas inglórias. Basta ver o desfecho nas novelas, nos filmes, nos contos de fada, nos romances e... na vida real.
Por um amor a gente faz poesia, compõe música, planta lindos jardins. Mas essa consciência é só para os sãos, para os obsessivos sempre valerá tudo.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Ainda bem que nesse caso há escolha


Na sala de espera do laboratório encontrei com uma amiga da época de faculdade. Bastou meu caloroso "oi", feliz em revê-la, para que ela começasse a chorar. Aquele choro que é impossível de controlar, costumo dizer que é um tipo que vaza. E me maltrata. Conheço tão bem sua dimensão.
Há 3 anos, casamento em crise, propôs o divórcio ao marido, que negou, pedindo-lhe uma chance. Apaixonada acreditou na promessa de uma nova vida. Abraçou com ele as reuniões do AA, suportou a ex amante que, inconformada com o fim, invadia sua vida de forma doentia. Durante esse processo de reconstrução ele teve recaídas - bebeu, dormiu fora de casa, foi visto com mulheres. Mais de uma vez ela voltou a propor-lhe a separação. Ele voltava a chorar, ajoelhar, implorar. Ela, então, ficava. Afinal ele jurava lhe amar, e só precisava largar a bebida, abandonar "aqueles" amigos, e, quem sabe, frequentar uma Igreja. Aos poucos ela ia perdendo sua paz, adotando atitudes antes desconhecidas para uma pessoa segura, inteligente, de bom senso e sobriedade. Passou a vigiar tudo que o cercava. Pagava por fora a secretária dele para obter informações. Pediu licença do seu emprego para lhe buscar todos os dias no final do expediente. Vasculhava celular, roupa, carteira. Perdia horas ao seu lado, enquanto ele, na internet, ela fingia ler um livro que nunca saiu da mesma página, olhando-o na tentativa de decifrar sua fisionomia, e por vezes seguidas, se aproximava de surpresa para ver onde ele estava navegando. Enfim, abandonou sua vida na esperança de uma vida com ele. Perdeu seu rumo para seguir o rumo dele. Um dia ela recebeu um telefonema com insinuações sobre seus casos extra conjugais, como acontecia tantas vezes. Mas diferente das outras vezes, onde ela lhe interrogava e ele negava fazendo uso de argumentos muito bem embasados e convincentes, não lhe perguntou nada. Foi direto à fonte e descobriu que depois de ajuda-lo a largar a bebida (completara 2 anos limpo), a reconstruir sua autoestima, a se integrar socialmente, ele estava de caso com a advogada da empresa onde trabalhava. Nada me surpreendeu o fato dela me dizer que ele ainda negou.
Completava 3 semanas de separação. A dor dela era contagiante. Saímos dali para minha casa. Fiz força até onde pude para me emocionar só por dentro, mas confesso que também "vazei". Ao invés de ficar triste comigo, fiquei feliz. Ando preocupada com a frieza do mundo. Temo um dia não me consternar mais com a dor do meu semelhante. Rudeza me assusta. Preciso acreditar que sempre haverão pessoas solidárias, que enxugam lágrimas alheias. Gosto da ternura.
Depois de um tempo de conversa ela disse "percebi que não sinto falta dele... nem do seu cheiro, nem da sua voz, nem do dia a dia ao seu lado". Questionei-a então sobre o motivo de tanta dor ao que ele me disse "ele me enganou, jurou me amar, era consciente do tanto que suportei para permanecer ao lado dele, quando desconfiada, perguntava se tinha outra, ele negava e nunca vou perdoá-lo por isso". Nem um minuto ela disse sobre a dor de ver encerrado aquele projeto de vida a dois. Ela não falou da falta. Nem de ausência. Não falou de amor. E pude perceber mais uma vez que nosso mal, de todos nós, é o ego. Quem chorava era seu amor próprio e não seu amor perdido... Ela chorava porque ele prometeu e não cumpriu, e eu entendo, mas usando a razão, ninguém pode prometer nada quando o assunto é amor. Promessa é algo racional. Amor é irracional. A dor dela passava longe de ser uma dor de amor... Ela já andava há muito decepcionada, desiludida, descrente. Consegui fazê-la perceber que ela estava aliviada com aquele final, enquanto ela batia na mesma tecla - "Mas ele prometeu que ficaríamos juntos, ele jurou que me amava! Ele tinha que cumprir!" Coração não cumpre nada... coração só sente.
E volto a questão do apego, da posse, do domínio sobre o outro... Todos sofremos por amor, mas é uma dor sacralizada. Arrisco a dizer que é até bonita. Sofre-se com a aceitação inerente ao sentimento de amor, tudo fica mais leve, até que passe ou ache um abrigo do lado de dentro. Mas a dor da perda é profana, é feia, é revoltante, tudo fica pesado e não passa, porque é um sofrimento amarrado, lacrado, renitente... todos ficam prisioneiros, e se não ficar muito atento, pode-se ficar nessa prisão eternamente. Ainda bem que nesse caso há escolha.

sábado, 27 de abril de 2013

Zyah, Ayla, (eu não!) e você?

Não costumo ver novelas, por falta de tempo aliado ao fato de considerar, ao lado de uma minoria, um entretenimento de baixa qualidade. Mas, ainda assim, quase todos acabamos parando em frente a TV e assistindo um capítulo aqui, outro lá, e, como defendo que de (quase) tudo, tiramos uma lição, é válido. Disse o jornalista H.L. Mencken, em um cinismo providencial que "Ninguém nunca perdeu dinheiro por subestimar a inteligência do grande público". Pois é... Caso a se pensar.
Bom, o fato é que dia desses, assisti uma parte da novela e me deparei com a cena protagonizada pelo triângulo amoroso do charmosérrimo Zyah, com as belas Ayla e Cléo Pires (de quem esqueci o nome da personagem). Ele é casado com Ayla, por quem sente respeito, carinho, amizade e uma imensa culpa que lhe impossibilita de largá-la para vivenciar seu amor. A esposa sempre desconfiou do sentimento do marido pela "estrangeira"(como se refere a ela), e vive dia a dia atormentada pela desconfiança,  insegura por causa do ciúme, esquecendo-se que há enorme diferença entre o que recebe e o que merece receber. No capítulo que vi, ela flagra o marido com a outra, em uma linda cena de amor, entrega, felicidade entre o dois, obtendo, finalmente, a confirmação de sua desconfiança. Foi embora para casa, e junto com a família, decide fingir que nada aconteceu no intuito de preservar seu casamento, perdendo-se de si mesma. Quando o marido chegou dizendo que precisavam conversar (obviamente decidido a separar-se dela) ela rebateu dizendo qualquer coisa que o  lembrou de sua amorosa dedicação como esposa, calando-o pelo sentimento de culpa, gratidão, piedade. (Como um ser humano pode se submeter ao desamor?)
Passando do particular para o geral que fazemos quando generalizamos ou fazemos predições, há mulheres que fazem isso com tanta competência que os "algemados parceiros", sequer percebem que passaram de lobos a cordeiros. Mas, como o amor e o desejo costumam ter a força de um vulcão, certamente eles não deixarão de viver essa outra relação, mesmo que na clandestinidade. E dá-lhe sofismos e ilusões, que, diga-se de passagem, foram solicitados pelas próprias "parceiras oficiais" destes, que mesmo cientes de não mais serem amadas, contentam-se com a posse do "objeto" do seu desejo. E no final, caímos no ceticismo feminino de que homem é tudo igual...  
É aquela sábia frase - "Há pessoas que armam a tempestade e, depois, reclamam quando a chuva caí". É por aí...
Eu fico indignada! 

quarta-feira, 24 de abril de 2013

"Escrevo para não deixar passar..."


Escrever para mim sempre foi um transbordar. Posso escrever sobre a Capadócia, onde nunca estive ou sobre o Modernismo sobre o qual apenas estudei, e minhas palavras estarão, invariavelmente, traduzindo um tanto de mim. E, diga-se de passagem, me salvando de uma loucura maior... Desde muito cedo encontrei no hábito da leitura uma forma de abstrair-me daquele "entorno de mim" tão maluco. E o ato de escrever passou a ser um processo de cura, onde invariavelmente eu atirava no papel todos os sentimentos (nocivos ou não) que me entorpeciam e que, muitas vezes, cri , me levariam a um estado irreversível de insanidade. Deu certo. Nos momentos mais conturbados da minha vida, posso não encontrar tempo para caminhar ou para meditar, mas ficar sem escrever me é impossível...Na maioria das vezes, nem posto por absoluta falta de tempo de criar título, corrigir, formatar, colocar imagem. 
Escrever é a minha mais poderosa oração.
Hoje acordei muito cedo com a certeza de que seria realmente impossível escrever. Ando em um período onde um dia se dissolve em minha frente, como acontecem com as horas quando estamos ao lado de quem amamos.
"Coisas demais e tempo de menos" me assolam ultimamente. Mãe doente, viagem quase diária de 110 Km ida e volta, aulas, escola, monografia, e uma Filosofia da Religião que tem tirado minhas poucas horas de sono, repensando fé, Deus, religiões. Enfim, para completar tudo isso, hoje minha afilhada faz 10 anos. Uma menina doce, que enfrenta de forma aguerrida a separação dos pais, o retorno para a casa dos avós, um doloroso tratamento hormonal. A mãe exausta de muito mais coisas do que simplesmente o trabalho diário, decidiu que não faria nada para ela. Lembrei da minha infância e dos meus aniversários onde não tenho na memória, nenhum envolvimento afetivo dos que me cercavam nos preparativos das minhas festas. Era tudo impessoal. Só eu sei o quanto isso me perturbava.
Não poderia deixar que ela completasse uma década de vida sem uma vela, sem uma foto, sem nenhuma simbologia. E, na contramão do tempo, fiz o cachorro quente, o brigadeiro, o bolo e ainda soprei bolas. (E... ainda estou aqui, escrevendo). Liguei para ela e avisei. Daí a pouco ela chegou toda feliz e me entregou uma folha de papel em branco e uma caneta e disse: "Dinda, vim te ajudar porque se você ficar fazendo tudo sozinha não vai dar tempo de você escrever nada para mim e aí eu vou ter que passar mais um ano lendo toda noite o que você escreveu para mim nos meus outros aniversários".  Mais uma que encontra a cura na força das letras e que, estava mais ansiosa com o que eu escreveria para ela, que seria, provavelmente, também sua oração, sua força para transformações, e seu combustível do que com o bolo, o brigadeiro, o cachorro quente e as bolas...
Como disse Priscila Rodê:
"Escrevo pra não deixar passar,
pra guardar sorrisos e mudar caminhos.
Escrevo pra (você) não esquecer quanto tempo faz."

terça-feira, 23 de abril de 2013

O renascer diário

Cada novo dia traz em si latentes possibilidades.  
Dormir é uma pausa, momento de recompor energias, uma forma de “não pensar conscientemente” porque inconscientemente, os sonhos que o digam! Quando você dorme, encerra um dia de vida – bom ou ruim, já sabendo que ao acordar, outra jornada se iniciará, com outras oportunidades e novos aprendizados.
Mas é verdade que tantas vezes o dia amanhece e a noite permanece lá, teimando em não dar chance para o dia nascer dentro de mim. Eu desperto e não abro o olho, a garganta fecha, o coração aperta e a vontade é que o mundo não me espere, e me deixe ficar quieta. É um luto interno, solitário, ninguém vai me abraçar, os amigos não virão para ficar ao meu lado enquanto enterro alguém. Enterrarei sozinha - sonhos, pessoas, desejos. A vida congela e por mais que eu cumpra o ritual diário, metade de mim não está ali. E quando a noite finalmente chega, me dou conta de que aquele dia nem amanheceu ainda dentro de mim.  
Vivemos tão ligados no automático que nem notamos a grandeza dessa cadência perfeita de dormir/ acordar diário que corresponde ao  desencarnar de uma vida e reencarnar em outra.  Aquele novo dia que começa, é uma nova chance que possibilita, ou mais que  possibilita, te convida a  fazer algumas escolhas.
Hoje eu amanheci fazendo a minha escolha. Acordei com uma sensação de noite eterna dentro de mim. Olhei em volta e não vi chão nem paredes. Novamente me senti em queda livre. Fechei a janela, os olhos, e o meu coração e voltei para cama. Mas e aí? O dia que acenava na minha janela era meu. Não sou vítima de  ninguém, portanto não tenho como culpar terceiros. Ou dramatizo sobre uma inevitável constatação e perco tempo e vida, ou reajo.  Tinha uma escolha a fazer - jogaria um dia fora? Levantei, abri a janela, os olhos e o coração. O céu sem uma nuvem me inundou com seu azul e aceitei o convite para o dia.  Afinal...  "é tudo como tem que ser" e fui repetindo como um mantra a mim mesma, enquanto calçava o tênis da corrida, enquanto preparava a coalhada com granola, enquanto descia as escadas de casa, enquanto corria os primeiros minutos. Em segundos a angústia deu lugar a paz. E eu abençoo, mais uma vez, minha resiliência. 
O homem jamais deveria se permitir despertar para um novo dia como se fosse um ser irracional que levanta e vai, sem saber para onde e nem por que. É imprescindível refletir a respeito daquela “nova vida” de 24 horas, com seus desafios e surpresas, sejam eles, positivos ou negativos. É preciso coragem para olhar e ver. A postura adotada frente àquilo que vem ao seu encontro é que vai fazer toda a diferença. Nunca haverá culpa e culpados, nunca haverá vítimas e algozes, nunca haverá a bela e a fera, porque em algum momento todos que são feras, serão belas e vice e versa. A vida é uma troca, o tempo todo... hoje eu troquei com o céu azul, todo dia trocamos com as pessoas, sempre daremos algo, sempre ficará um pouco do outro em nós. É preciso desprendimento para entender que está tudo absurdamente organizado no universo e nada jamais sairá fora do lugar. E essa inquestionável verdade conforta uns, mas desespera aqueles que acreditam que podem sempre. Não podem. É preciso abrir as mãos e o coração para receber aquilo que já está destinado a você. É na não vontade e no desapego que tudo acontece.
Existem pessoas que olham para o dia chuvoso e “rosnam”, outras aproveitam para fazer poesia enquanto aguardam a roupa secar.



domingo, 21 de abril de 2013

Amor amigo



Porque os relacionamentos de amizade são mais estáveis que os relacionamentos de amor? Quantas vezes pensei e ponderei a esse respeito. Raramente as amizades verdadeiras terminam em "divórcio", quase sempre se perpetuam, e o casal de amigos envelhece junto. Parceria de amor deveria ser tão ou mais forte que a de amigos. Mas não é. Penso que é porque existem amores que não são amigos, enquanto amigos sempre são amores.  
A experiência que só o tempo trás, me permitiu algumas constatações.
Para começar, amigos criam laços mas não se acorrentam. Amigos não se sentem proprietários um do outro. Amigos não pedem garantias. Amigos não se cobram por telefonemas que não foram dados, não exigem do outro mais do que eles querem dar. Amigos simplificam a relação. Sabem-se especiais. São seguros quanto ao afeto do outro. Amigos podem ficar à vontade para errar, não temem julgamento, pois sabem que aquela amizade não está condicionada aos seus acertos. Formam um casal de duas pessoas livres. 
Relacionamentos amorosos, são um convite a perda da identidade. Para ser feliz é preciso tornar-se um só, acatando ou refutando de forma uníssona o mundo. Despersonificando, tolhendo, calando o outro, em prol da vida a dois. Nesse tipo de relação, ambos coisificam-se, e terminam por ter ali, a seu lado, uma extensão de seus projetos e não um ser humano. 
Amigos não fingem ser quem não são, nem gostar do que não gostam, viabilizando assim, o poder de conquista - erro fatal. As mulheres especialmente, simulam a ponto de perderem-se de si mesmas.
Nas relações de amizade, quando um erra corre para o colo do outro, sabendo que será acolhido. Nas relações de amor, quando um erra, corre para longe do outro temendo julgamentos. Amigos dividem o outro com o mundo. Amores querem a posse do outro só para si. Na amizade há concessão, não sacrifícios, como no amor.
Amigos amam, sem antes antever o que será do outro, futuramente. Amam enquanto o outro ainda está atrás dos bastidores, sem nem se importar se um dia,  subirá ao palco. Amam aquela pessoa torta, errada, defeituosa. Amores escolhem. Amigos acolhem. Amores pedem promessas que quando não cumpridas dão ao outro o direito de se vitimizar, imputando culpa e remorso naquele que dizem amar. Amigos não. Prometeu e não cumpriu? "Não tem importância... na próxima vez você faz melhor."
Seria tão mais fácil se soubéssemos amar a dois, do modo como fazem os amigos.
Confesso que eu sei.
A diferença fundamental entre esses dois tipos de casais é o desejo sexual porque amigos, não se sentem atraídos fisicamente. 
Enfim viver um relacionamento a dois, com seu melhor amigo, certamente é o paraíso, mas  fazer do seu amor o seu melhor amigo é um empreendimento difícil para grande a maioria, porque quem ama automaticamente acorrenta o outro, tabulando antes de uma relação de afeto, uma relação de medo e culpa. 
"Para amar é preciso transbordar de amor e para compartilhar é preciso ter amor. Quem se relaciona, respeita e não possui." Osho

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Cardápio de amor na internet


Li hoje uma reportagem sobre o promissor mercado de sites de relacionamento que está por aí, a serviço do amor. Eu sou sabidamente uma defensora dos relacionamentos virtuais, primeiramente por uma questão pessoal, já que amo antes de tudo, aquela famosa "beleza interior", e depois por uma questão prática e geográfica, já que abrange um leque maior de possibilidades.
Mas percebo que esses sites já embarcaram nessa ignóbil "viagem capitalista", e no afã de atrair mais clientes,  vão criando compulsivamente serviços diferenciados, perdendo sua mais nobre função - a possibilidade de reconhecer-se no outro, antes de conhecê-lo em detalhes. Racionalizando, enquadrando, objetivando o que deveria ser apenas sentido.  Os sites hoje, são verdadeiras vitrines humanas. Os candidatos passam por uma profunda anamnese onde nem mesmo aquela tatuagem feita na adolescência, escapa. Oferecem um minucioso cardápio onde é você mesmo quem monta cada item que deve compor a pessoa que você desejaria amar. Pode isso? Pode, aliás tudo pode, mas perdeu o significante e o significado. Tornou a busca vazia. Assassinou o sentido, literalmente. 
Cor do cabelo, peso, altura, renda mensal, cor da pele, religião, preferência musical... Tudo lá à disposição. Basta escolher. Um convite ao preconceito. Eu já não seria mais candidata a esses sites, porque a única coisa que tem o poder de me conquistar  não tem cor, não tem sexo, não tem peso, nem altura... é a alma. A sensibilidade, por exemplo, que eu poderia expressar em uma frase escrita durante um bate papo,   nunca iria ocorrer caso o candidato em questão, tivesse optado por uma mulher sem tatuagem. Na contra mão do que é objetivado, esse  rol imenso de possibilidades, impossibilita o verdadeiro encontro. É vedado o reconhecimento. E porque aquela pessoa não tem o mestrado exigido no seu cardápio você perde de conhecer uma alma nobre. E porque o outro não tem a renda mensal que você quer que ela tenha, você perde de conhecer um ser humano inteiro.
Em meio a tantas exigências você está  se fechando  dentro de seus próprios dogmas e crenças, ou seja, rodando em círculo. Buscando semelhança em excesso e abrindo mão do grande aprendizado contido nas diferenças. Um atraso na evolução de todos nós. Você se protege e deixa de experimentar. 
Sem contar que você poderá ser privada de descobrir que por trás daquela pessoa misteriosa está um ser humano nobre, que em detrimento de tantas diferenças entre vocês, socorre cachorros que vivem sobre uma laje quente. E mesmo que tudo dê errado, o que vale é olhar para trás e certificar que de tudo, fica uma história que enriquece a vida. Dor de amor, todos vamos passar. Decepções, frustrações, mágoas todos estamos sujeitos, mas o que vale é o que ficou de belo e verdadeiro, daquilo que não pode mais ficar. 
"Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais." (Adelia Prado)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Quando a chave gira



Um dos grandes aprendizados da minha vida é conviver bem com as diferenças. Respeitá-las é algo inegociável no meu mundo. Gostando ou não, respeito e ponto final.
Mas tenho algumas dificuldades extremas que por vezes passeiam dentro de mim. Ficam latentes, e eu luto até onde posso para que permaneçam assim. Não gostaria, impotente, de presenciá-las jorrar em direção ao outro. Pertenço ao time que acha que desculpas devem ser evitadas, portanto prezo o fato de não precisar pedi-las a ninguém (mas nem sempre obtenho êxito, claro). Geralmente não me permito aquele “momento estrela” onde jorra falta de educação para todo lado, prefiro sempre, sair de cena.
Não sirvo de exemplo para muita coisa, mas sem falsa modéstia, gostaria de ter a mim mesmo como amiga. Tenho imenso prazer em exercer essa função. E o que é feito com prazer, costuma ser eficiente. Perco noite de sono ao lado, ando a pé do Oiapoque ao Chuí, seguro firme na mão quando o mundo inteiro já virou as costas. Amores meus não ficam só. Jamais. E, entendendo que relação de amor é, antes de tudo, uma relação de amizade, estendo isso aos meus relacionamentos afetivos. Deixo qualquer coisa para estar ao lado. Posso negar o convite para uma festa, mas jamais para um dia cinzento.
Não é tão fácil encontrar quem chore junto.
Mas a mesma ênfase que dou ao reconhecer em mim uma qualidade, repito ao reconhecer em mim um defeito. Quando uma chave indecifrável gira dentro de mim, pum! Morre a pessoa, protagonista daquela amizade e/ou daquele amor, ainda que permaneçam em mim, os sentimentos. Com a mesma intensidade com que viveu em mim, deixa de viver. Como gostaria de compreender o que acontece dentro do meu coração... Mas não consigo! O que aciona essa chave? Desconfio de algumas coisas, mas não sei ao certo.
Só permaneço incondicionalmente ao lado, quando algum tipo de fagulha do sentimento alheio, ainda chega até mim, pode estar fraca e esporádica, mas sou capaz de sentir se é verdadeira. Se for, não desisto nunca. Sentimentos não se comparam, não existe "toma lá, dá cá", mas existe algo que, também não sei explicar, é imprescindível para nutrir a história e seus protagonistas. Quando não há, definha-se
Algumas vezes aconteceu essa morte. Eu nem percebi... Decepcionei-me (e também não sei dizer porque) uma vez, duas, na terceira, tudo – a situação e a pessoa - já me ficaram indiferentes. Não pensei mais no assunto. E quando um dia o encontrei, já era um estranho para mim. Conversou, me buscou de todas as formas. Foi em vão... Eu tentei, briguei comigo mesmo, lutei contra a chave, quis deixar tudo de lado e recomeçar, mas já era tarde. O sentimento ainda estava ali, só que passou a ser  impessoal. Passara a ser, digamos, coisa minha. Só minha. Do fundo do coração, eu não queria que fosse assim. Mas é involuntário.
Sou incapaz de desejar qualquer coisa de ruim à pessoa em questão, primeiro porque não consigo mesmo desejar mal ao meu semelhante, e segundo porque desejar é um verbo que pede complemento - “quem deseja, deseja algo a alguém” e esse alguém, simplesmente passa a ser sujeito inexistente, por mais que eu lute e sofra por tudo isso, que apesar de  ser tão meu é, ao mesmo tempo, tão inerente à minha vontade.
Perdoar é fácil. Louco de quem se acha no direito de não perdoar. Aliás não me refiro aqui a culpas, julgamentos e absolvições, afinal, quem sou eu para tanto? Só me refiro  mesmo a essa maldita chave que gira, e faz esse "algo" acontecer dentro de mim eliminando pessoas, sem que eu tenha sequer tempo de decidir se é isso que quero ou não.  

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