O blogger é atualizado de acordo com as batidas do meu coração. É um prazer tê-los comigo.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O que fica quando tudo passa


Quanto meu segundo casamento acabou cheguei a acreditar que a gente morria de amor, mas não morre. Pior que a dor são os planos jogados fora, aumentando ainda mais o insuportável vazio na alma. Saudade do que foi, torturando o que poderia ter sido. Mas, as noites em claro,  a dor e a angústia que pareciam eternas passaram, e sai muito mais fortalecida, como todos que passam por essa amarga experiência. 
Nunca me forcei sorrisos mostrando que eu estava bem, também nunca fiquei cantando minha dor pelos quatro cantos do mundo. Mas vivi meu luto com prazo marcado - três meses. E foram meses cinzas sem conseguir enxergar beleza em nenhuma flor. Como combinado comigo mesma, no 91º dia (que eu ia cortando no calendário), abri a janela e o céu me abraçou. Eu estava pronta para recomeçar. 
Não me abriguei no primeiro abraço, nem me entreguei ao primeiro beijo que me apareceu. Mas tinha claro para mim que não me fecharia para a vida. Era só um tempo meu. 
Nesse período tive um encontro especial comigo e descobri coisas que meu ex marido me dizia e que guardo comigo para todas as vezes em que alguma situação tenta me tornar menos do que realmente sou. 
Que sou engraçada, mas n sou lá muito simpática. Tenho épocas especificas para ouvir clássicos e mpb. Sou distraída a ponto de tentar entrar em um carro preto sendo o meu, vermelho. Livros são os únicos que poderão trair as pessoas a quem prometo fidelidade. Xingo mais do que deveria (para tristeza da minha mãe).  Meu colo é o melhor do mundo e sou fiel, como poucos seres humanos. Lembrar do que meu ex marido sem nenhum tipo de rancor, me permite lembrar que ele dizia que minha comida era deliciosa, e ele tinha razão. Tinha razão quando dizia que minha risada era contagiante e que viajar em minha companhia era algo inexplicavelmente bom. Tinha razão quando dizia que estar ao meu lado era ter ao mesmo tempo uma mãe, irmã, professora, mulher, amante. Tinha razão quando dizia que eu era  a melhor motorista que ele já conhecera, mas que me perdia até mesmo dentro da minha própria cidade. 
Dizia que eu era especial e que merecia ser a pessoa mais feliz do mundo.
Acertou em quase tudo, e modéstia à parte sou especial mesmo. E  apesar de eu não me perder mais na minha cidade, continuo errando de carro. Xingo bem menos e agora, ouço quase sempre só clássicos, mas ainda continuo tendo o melhor colo do mundo. E também continuo sendo excelente companhia para viajar. Mas envelheci e descobri que atitudes me importam muito mais do que palavras (logo eu, que fazia questão de flores e frases bonitas), que livros são infinitamente melhores companhias que as pessoas (podem até me decepcionar com uma história ruim, mas nem assim eles mentem). E apesar das outras quedas que se seguiram à separação (porque viver é isso), eu nunca deixarei um bloqueio impedir que coisas boas cheguem até mim, as desilusões(sejam de que natureza forem),  não podem ser maiores do que as possibilidades de boas coisas. E nem maiores do que eu ou do que você.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Sobre amantes


Terminado um livro sobre um belo sentimento de uma mulher pelo seu amante que também nutria um belo sentimento, só que pela esposa, senti imensa vontade de fazer algumas considerações para essa "classe inexistente", mas real: as amantes.
O grande erro das amantes é achar que ele não ama a mulher dele só porque saiu com você. Ele pode apenas estar passando uma fase difícil ou sofrendo com o tédio dos anos de relação e se divertindo, mas a prioridade é ela. 
Amante não ocupa nenhum posto, não ostenta nenhum titulo que não seja "boa de cama".
Aposto que em um momento de raiva você já pensou ao vê-la na rua "Lá vai a corna". 
Ok, é corna mas é ela que dorme na cama com ele, é corna mas tem prioridade em tudo que ele faz, é corna mas quem decide onde e quando ele sai, é ela (inclusive é ela quem decide quando você sairá com ele), é corna mas ele faz tudo o que ela manda.  E você? 
Aprenda: a grande maioria dos homens trai. Trai por insegurança, por carência, por vingança, por raiva, enfim, trai porque a esposa não estava lhe dando o devido valor.
Mas amor de verdade e dedicação… Ahhhh, isso você não tira do marido de ninguém!
A amante é chamada de vários codinomes. Ela é "viagem a trabalho", "ida ao clube", "jogo de futebol", "saída com amigos". Amante tem variadíssimos nomes. Menos o da certidão de nascimento. Amante passa por um processo de despersonalização.  
Mas é bom deixar a hipocrisia de lado,  é preciso admitir que qualquer pessoa pode se envolver em um triângulo amoroso, e isso não quer dizer que ela seja, necessariamente, uma vadia desprovida de moral.
Pior que a ilusão da esposa em acreditar que não é traída é a ilusão da amante em acreditar que um dia terá o homem casado só para ela. 
As relações humanas são complexas demais e não podemos rotular as pessoas. Existem histórias com final feliz, mas a realidade mostra que a maioria dos finais é cheio de feridas, como o do livro que acabei de ler hoje.
Se alguém pedir minha opinião sobre ser ou não amante de alguém, opinarei com uma pergunta "você tem perfil para amante?" E qual seria esse perfil? Creio que deva ser de uma mulher desapegada, descolada, cujo interesse seja apenas sexo e curtição, que não se importa se o amante almoçou, se tomou o remédio, se está bem, pois se envolver qualquer sentimento está fadado ao fracasso, por que sentimento leva a apego, e apego é algo que a amante não tem direito, amante não pode sequer ter ciúmes. 
É impressionante a quantidade de mulheres românticas e com sonhos de formar uma família que se perdem nesse papel. Amante não tem direitos, não tem vontades, não tem escolha, alias só tem migalhas deixadas por outra mulher que será sempre a primeira escolha dele.
Não vai aqui nenhum juízo de valor sobre certo ou errado, apenas sobre a falta de perspectiva de futuro que vem junto com a posição de amante. 
Se você optou por ser amante, esqueça sonhos de vida a dois, esqueça as noites vendo TV e dormindo juntinho, esqueça a mão sobre as suas nos momentos difíceis da vida. Nada disso te pertence. É tudo somente da esposa. E por mais que você faça por esse homem, por mais que você se preocupe com ele, se dedique a ele, se doe só para ele, nada, nada, nada mudará isso. Porque ninguém pode amar duas pessoas, sendo assim, a esposa será sempre o amor, e a outra, apenas a outra.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

E viva o que já está lá, nos esperando em 2015!

Final de ano trás sentimentos mistos, talvez a realidade se impondo, empurrando sonhos e ilusões.  
Pesa a sensação de tudo aquilo que não pode ser feito. São dias em que insiste em mim, uma tristeza chata que não vejo a mínima necessidade de existir.  Uma interrogação gigantesca sobre o que teria sido se determinadas coisas não tivessem acontecido (ainda que essa pergunta seja uma tremenda bobagem).
Pessoas que cruzaram nossos caminhos, outras que poderiam ter cruzado,  mas passaram em paralelo. 
Derrotas, vitórias, choros e sorrisos. Muita coisa a ser guardada naquele valioso baú da alma. Momentos e pessoas. 
Pessoas que nos roubaram, outras que nos devolveram.  
O poderoso tempo que nos permite reconhecer que aqueles que nos fizeram sofrer foram grandes professores e, por causa deles, crescemos um tanto que não teríamos crescido, não fossem suas dolorosas lições.
Mas não sei se brinco de Pollyana Moça e vejo o lado bom de tudo, se encarno a Vida é Bela e faço dos limões, litros de limonada, ou se descarrego um sonoro PQP para os "aprendizados" de 2014. 
Sim, eu creio em um Universo determinista, portanto, tudo foi como tinha que ter sido, mas isso não me tira o direito de achar uma merda várias das imposições do meu inegociável destino.
E aí, com uma dualidade geminiana, me pego grata porque sendo eu um poço de fé, sei  que a Providencia Divina é perfeita e, assim sendo, está tudo em seu devido lugar, ainda que, sob meus olhos tão humanos, me pareça um gigantesco quebra cabeça embaralhado.
Enfim, é isso. A maioria dos acontecimentos invade vidas sem nenhuma explicação, e toda a existência, do mineral ao mais alto mestre espiritual, segue cumprindo o papel que lhe  foi designado, fazendo parte da perfeita harmonia da grande obra do Criador (ainda que por vezes se iluda, achando que pode decidir algo). 
Então, finalmente, digo a mim mesma " relaxe pois, absolutamente, nada está sob controle". E aí, peço a Deus que nos mantenha a paz espiritual em qualquer situação!
E viva o que já está lá, nos esperando em 2015! 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

"Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve."




Hoje vi uma charge onde um Papai Noel perguntava a um garoto "o que você quer de natal" e ele respondia "ser feliz", e então, o Noel aparece no próximo quadrinho, sem suas roupas típicas, bebendo e desempregado.
Tão simples e tão complexo. Afinal quem não quer ser feliz? Até mesmo, a variada lista de pedidos de Natal, visa à felicidade. É uma multidão que pensa que aquele último modelo de celular, o fará feliz. E fará mesmo. Por uns... três meses, talvez.  Vejo pais se sacrificando ao limite para presentear o filho com tudo o que ele deseja ter. Fazem isso por acreditar que estão lhe ofertando felicidade. E estão certos. Seus filhos estarão felizes, pelo menos até o momento em que tudo aquilo  que ganharam, deixar de ser novidade. 
O ser humano só fica saciado até a página 2, depois precisa de mais. E é um poço sem fundo. E sem rumo. Isso me lembra uma passagem do livro Alice no País das Maravilhas. Alice está perdida, andando naquele lugar e, de repente, vê no alto da árvore o gato. Só o rabão do gato e aquele sorriso. Ela olha para ele lá em cima e diz: 
"Você pode me ajudar?" 
"Sim, pois não." 
"Para onde vai essa estrada?" pergunta ela. 
"Para onde você quer ir?" ele respondeu com outra pergunta
"Eu não sei, estou perdida" ela disse.
"Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve" diz o gato.
É isso. 
O ser humano me parece bem representado por aquele personagem inglês que tem "cara" de desorientado "Onde está Wally?". É o que a humanidade faz quando investe ilimitadamente no que é efêmero, e dedica, quando muito, brevíssimos sopros de vida, ao que é eterno.  
Sempre questiono meus alunos sobre qual a única certeza que temos na vida. A maioria tem a resposta na ponta da língua: "a morte". A pergunta seguinte é s "e quando morremos o que iremos levar?" 
Ao contrário do que dizem, eu defendo que a felicidade pode ser comprada.  Tudo depende da escala de valores da pessoa. Para quem se sente saciada por um par de diamantes, um conversível, uma bolsa de grife, ao compra-los estará, automaticamente, comprando sua felicidade. Momentânea, eu diria.  Mas não deixa de ser felicidade. Para quem um corpo perfeito é sinônimo de felicidades e para tanto luta com unhas e dentes, academias e bisturis, ao obtê-lo, obteve a felicidade, ainda que não seja o bastante. Enfim, tudo é válido. Só não vejo lógica de tanto investimento ao que, invariavelmente, terá que ser deixado para trás (no exemplo dado, o corpo que ficará sob a terra e as joias q serão, com sorte, divididas pacificamente em família), em detrimento do que levaremos para toda a eternidade. Se conseguirmos responder a essas duas perguntas já teremos um caminho e poderemos até mesmo manter o emprego do Papai Noel, porque o caminho do meio sempre foi o único correto. 

domingo, 7 de dezembro de 2014

Promessa de amor parece foram feitas para serem descumpridas


Esse final de semana foi regado a separações. Uma amiga, cujo namorado foi embora porque “queria sossego”, o filho de um amigo, cuja “namorida” após cinco anos de relação, se cansou e uma amiga que foi “chutada” do dia para noite por um cara que lhe jurava amor, sistematicamente, há mais de dez meses.  
Todos tinham uma mesma pergunta: “Porque prometeram eternidade, fidelidade, cumplicidade se não podiam cumprir?” 
Sou da opinião que, pessoas normais e bem intencionadas, não fazem promessas que já sabem, de antemão, que não cumprirão, isso é coisa dos sociopatas e do mau caráter.
Promessa é algo intrínseco ao amor. Amor sem promessas não é amor.
Todo relacionamento romântico nasceu das juras trocadas sob olhares apaixonados, corações disparados, emoções à flor a pele, ainda que tenham durado eternos dois meses.
O mais antigo ritual que celebra a união de um casal se dá a partir de uma promessa (e que promessa!) – “na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até que a morte separe”.
Por que prometemos? Porque temos esperanças, porque sonhamos, porque projetamos, porque o amor faz perder tanto a noção da realidade que os casais chegam a prometer um ao outro, amor eterno. Como? Se nem nós somos eternos?
Dói quando acaba, dói mais ainda quando aquele projeto a dois termina para o outro, mas continua para você. É esse o momento onde se questiona sobre onde foram parar as juras de amor.
Dizem que quanto menos expectativas, menos chance de frustrações. Verdade. Só não dá para esquecer que o que faz o sol brilhar mais, o chão ficar mais macio e o ar mais leve são justamente as promessas. Elas que nos motivam, nos levam a sorrir à toa, a ver cor em tudo, a ter um ânimo renovado a cada manhã. E, por mais que diante do final, tudo pareça ter sido em vão, não foi.

Promessa de amor parece mesmo que foram feitas para serem descumpridas, mas antes já cumpriram a função de um momento bom – traduziram sentimentos e te fizeram feliz.
(http://www.marcelolopes.jor.br/blog/artigo/1166/promessas-de-amor-foram-feitas-para-serem-descumpridas)

terça-feira, 25 de novembro de 2014

É que o amor é raro


Não acho que homens e mulheres fiquem sozinhos por opção, ainda que muitos digam isso.
Encontrar uma companhia não é tão fácil. Para estar junto é preciso muito mais do que ser uma pessoa inteligente, bem humorada, educada, etc. Até porque, gosto não se discute, então, sempre haverá alguém que se sinta bem ao lado de um carrancudo, que acha que a capital dos EUA é NY e que limpa as mãos na toalha de mesa.
Não ter namorado parece sinônimo de defeitos: “Hum... deve ser cheia de manias, exigente, perfeccionista”. Para alguns a culpa é dos homens que não levam nada a sério, mentem e são infiéis. Para outros a culpa é das mulheres, fúteis, descomprometidas, interesseiras. Para a maioria, o problema está nos tempos atuais que oferecem muitas facilidades em múltiplos sentidos.
Ou pode ser porque você é chata. Ou porque ele é egoísta. Enfim, pode ser um monte de coisas, mas eu não acho que seja nada disso.
Amor não é nada fácil de encontrar. Qualquer critério, como aparência física, grau de instrução, profissão, renda mensal, é algo genérico, do contrário, bastaria acessar a plataforma do Linkedin.
Engatar namoros um atrás do outro para muitos é sorte, para mim é capacidade de relativizar. É considerar que algo para ser inteiro, absoluto, depende da circunstância, afinal eu não ficar sozinha no final de semana. Priorizam a companhia mais ainda que a própria pessoa. Não vai aqui nenhum juízo de valor. É só uma observação.
Tem gente que se adapta com mais facilidade. Eu, geralmente me adapto muito bem a quase tudo. Não a relacionamentos. Sou detalhista. Para eu ficar por inteiro (porque pelas metades a gente está sempre experimentando ficar) preciso gostar do tom da voz, dos gestos, do jeito que trata o garçon, do som do toque do celular.
Um casal de verdade é algo que me intriga. Se é tão difícil achar alguém para amar é também difícil ser aquele “alguém” que o outro vai amar. Óbvio. Agora imagina bem, você garimpa em meio a milhões de dificuldades, alguém que você finalmente consegue amar e aí, esse alguém te ama também!!! É milagre. Melhor definindo, é destino. Tem que ser. Só ele para explicar. Definitivamente, a culpa é mesmo das estrelas.
Tornar-se importante para alguém em um mundo onde tudo parece fugaz é algo intrigante. E belo.
Tempos atrás o hit do momento era uma música ridícula que dizia algo como “vou me divertindo com as erradas enquanto a certa não aparece”. Deve ser por aí, lembrando que o certo para um é o errado para outro. Ainda bem.
E enquanto isso a vida segue e pede paciência. Não cabem culpas.
Não é que você seja chato, é porque o amor é raro.
http://www.marcelolopes.jor.br/blog/detalhe/5/marcela-goncalves-de-sousa


sábado, 22 de novembro de 2014

"Há algo de podre no reino da Dinamarca"


Três anos se passaram desde que minha vida familiar feliz e estruturada, desmoronou. E eu que, até então, não encontrava coerência nas ideias de Karl Marx, encontrei em sua frase "o que é sólido desmancha no ar", uma representação para o que me acontecia. 
Sofri de arder. No inicio eu sangrava dia a dia. Uma noite qualquer, daquelas que parecia não ter fim, olhei para meus filhos dormindo, e me dei um prazo para secar as lágrimas. Assim mesmo, como se meu sofrimento fosse ter uma data de vencimento para que eu não mofasse de vez, como pão. Psicóloga duas vezes na semana, psiquiatra e tarjas pretas. Seis meses após a separação, eu já enxergava a luz, já via cores, já cantarolava músicas, e já não tomava remédios. 
Apaixonei-me outra vez, fiel à máxima: "tudo passa".
Vida nova. Tudo novo - roupas, namorado, trabalho, amigos, viagens, casa, quarto, cama. 
Congelei o passado. Nunca mais perdi um minuto do meu dia pensando no que tinha acontecido. Não queria saber. Não sentia nada, nem raiva. Conheci muitas pessoas novas, e entre elas, uma que já tinha dois anos de separada, e que ainda vigiava a vida do ex, se deixando envenenar pelo passado, perdendo chances de ser feliz no presente, e sem espaço para projetar o futuro. E eu agradecia a Deus pela minha capacidade de superação.
Não faz muito tempo, olhei para meu dia completamente louco, lotado de compromissos, me dividindo entre trabalho, casa, filhos e hospital, onde minha tia estava internada,  e vi brotar timidamente aquele mesmo ódio, no exato momento em que meu celular tocou: "mãe, você esqueceu de me pegar na escola, mas meu irmão já me pegou".  
Eu já era mãe há 24 anos e jamais tinha me acontecido algo parecido. Eu quis morrer de culpa no início, mas decidi por (quase) morrer de ódio no final. E percebi que eu, mãe, não tinha perdoado nada, eu apena tinha congelado. 
Fui pra casa, conversei com minha filha e levantei a possibilidade de voltar ao psiquiatra. Aí pensei: remédio para que? Para anestesiar o que eu já tinha feito a besteira de congelar? Não. Eu precisava enfrentar, deixar vazar, assumir, para só então, finalizar. E é o que tenho feito. 
Olho para minha filha (que nunca mais esqueci na escola) crescendo, se tornando uma moça, passando por fases que se alternam assustadoramente 20 vezes por dia, como toda pré adolescente, e penso no quão covarde foi esse pai. Não o marido, esse eu não precisei congelar, já que se evaporou no prazo de validade que estipulei. Gracias!
Não acordo no meio da noite pensando nisso, nunca perdi uma noite de amor, de distração ou um dia de trabalho me consumindo. Mas, em várias situações cotidianas que envolvem a vida da minha filha, eu percebo que não perdoei, e me esforço para jamais deixar que ela perceba isso. 
Não desejo mal a ninguém (não porque seja boazinha, mas porque ao desejar algo, desprendemos energia, e preciso muito da minha) mas também não acredito que nenhuma pessoa possa ser feliz sobre a infelicidade de um outro (principalmente, de uma criança). 
Sinto profundamente pela existência de laços que não se desfazem, e que ainda por cima, nos obrigam a conviver com seus novos laços trazendo o odor que exala da podridão nos ambientes que se formaram a partir de mentira, dor e traição.  
Enfim, como em Hamlet "Há algo de podre no reino da Dinamarca". 
Sempre houve.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Dicas inúteis


Amor correspondido nunca deixa dúvidas 
Se há dúvidas o mais certo é que não haja correspondência
Quando uma pessoa deseja a sua companhia, nada é empecilho
Mas se não te deseja, tudo serve como desculpa
Quando se quer ficar ao lado, nada impede
Quando não se quer, nada tem poder de fazer ficar
Não perca tempo criando justificativas para o comportamento de quem se ama
Siga sua intuição
Não modifique seu modo de ser por causa de um relacionamento
Se for por opção, ok
Se for por falta de opção, jamais!
Muitas vezes, menos é mais, devagar é melhor, cuidado é sábio
Não dedique a sua vida a alguém, se ele não dedicar a dele a você
O amor é uma troca sábia onde não se deve pesar nem medir
Final de relação não significa que nada deu certo, mas que tudo tem um tempo certo
Se você não se sentir cuidada, é porque já estragou...Não conserte.
Não mantenha uma relação aguardando que "ele(a) melhore"em suas atitudes... 
O que melhora é gripe e dor de cabeça, e não parceiros
Tenha em mente qual é o seu limite
Respeite-se
As pessoas não são iguais, se para você ganhar rosas é prova de amor, pense que para ele pode não ser. 
Seja sábia para entender os recados da vida, o que é importante não guarda obviedade
Se você sente que ele está te enrolando, provavelmente é porque ele está mesmo.
Ciúme acontece do coração para fora, mágoa acontece do coração para dentro
Não de ouvidos ao ciúme, mas pare tudo e escute sua mágoa
A única pessoa que você pode controlar em uma relação é você mesma.
Não seja desequilibrada a ponto de sentir-se feliz porque você disse "não quero que você vá, e ele não foi"
Sinta-se inteira ao ouvir "não fui porque optei ficar ao seu lado"
Não queira saber mais do que ele quer te contar
Se você desconfia de tudo, o problema mora em você e não no outro.
Se ele te trai o problema mora nele e não em você
Relacionamento pede cadência 
De resto é melodia mal tocada
Manipular é uma boa arma para retardar o inevitável fim
As pessoa só fazem conosco aquilo que permitimos, portanto, não jogue a culpa no outro
Em uma relação entre duas pessoas lúcidas e donas de suas faculdade mentais, jamais haverá vítimas e algozes. 
Somos iludidos só até 15 anos, depois disso damos permissão a ilusão
Não permita que seu amor defina quem é você - você já existia muito antes dele chegar, e ele poderá  somar ou diminuir  você, dependendo da sua  permissividade
E por fim lembre-se que amor não é matemática... 
Muitas vezes 1+1=0
Outras 1+1=1, e é essa que vale à pena
Por fim, mantenha sempre a porta aberta, nenhum amor resiste à falta de ar.
http://www.marcelolopes.jor.br/blog/artigo/863/dicas-inuteis


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Vazios


Vejo em você o mais bonito do que todas as coisas bonitas que já vi. 
Mais bonito que o mar com aquele leva e traz. 
Amor distante, e saudade eterna dos nossos próximos instantes (inexistentes). E, em frente ao mar que não vejo, fico a ver vazios. E embarco... 
Embarco no último barco e atraco no mundo que nos separa. 
Para sempre. 
Seus abraços nunca me tocarão. Nossas bocas também não. Sua voz não me emocionará. 

O que eu endeusava, não se humaniza. O que sangrava, não estanca. O que feriu, não cicatriza: sei q não era o que você queria, nas era o que você podia… 
Amar você já é o de menos. Nada disso existe... dizem que só existe o que vivemos e não o que pretendíamos viver (mas eu discordo).
E o que eu amava se evaporou no que não pôde ser, e o que eu procurava nunca chegou porque você não deixou. 
Sequer ouço seus dentes rangendo de saudade. Saudade do que poderia ter sido.
Ainda sinto a sua falta. Ainda tateio o seu corpo invisível nesse vazio imposto. 
Não porque você é mais bonito do que todas as coisas bonitas, mas porque você cabe tão bem no que eu sinto. 
"A grande verdade é que você é mais bonito do que a verdade".

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Como esponja do mar


Não canso de me surpreender com a abençoada capacidade de regeneração do ser humano.
Li que a esponja do mar, colorida e de formas exóticas que vive no fundo dos oceanos tem uma capacidade de regeneração tão impressionante que, mesmo se for triturada num liquidificador, consegue renascer.
E não é isso que fazem os corações?
Dor de amor pode ter a intensidade de uma patologia grave. A dor é física, ainda que esteja somente na alma. 
Parece infarto.
Quem nunca experimentou? Você deseja que o mundo pare para você descer. 
As cores desaparecem como em uma magia negra. A vida passa a ser levada no automático. 
Enfim, é como uma morte.
Aliás, é mesmo. Morre o futuro planejado.
Depois do luto vêm as conseqüências e tem-se a impressão de que será impossível se envolver em outros relacionamentos.
Até que, gradativamente, como acontece à esponja do mar, tudo em você vai se regenerando. A dor vai diminuindo, diminuindo e ao invés de consumir dias inteiros, passa a consumir somente as noites, e chega o dia em que a dor se dissolve, sendo substituída pela lembrança da dor. 
Essa ficará para sempre.
E aí, um dia qualquer, você se pega acreditando novamente. 
E então, após ser triturada por um processador, você se vê viva.
Outra onda a te "engolir" e você sabe que poderá se afogar novamente. 
Mas já conhece todo o processo, e já sabe que não vai morrer. 
Para recomeçar  é imprescindível enfrentar o medo de descer ao inferno mais uma vez.
Melhor queimar do que não sentir nada.
E então, você se entrega. E se arrisca. Porque viver é isso mesmo. 
E no final, a gente sempre renasce. Como esponja do mar.
(http://www.marcelolopes.jor.br/blog/detalhe/5/marcela-goncalves-de-sousa)

domingo, 29 de dezembro de 2013

Desculpas para 2013

Mais um ano se vai. Mais um ciclo se encerra.
Nada muda quando despertamos nos diversos 01/01. As mesmas contas a pagar, o mesmo saldo bancário, os mesmos problemas, as mesmas coisas boas. Mas o que seria de nós sem essa ilusão de que o ano novo é novo em possibilidades?
O Universo é perfeito. Os ciclos, mais do que possibilitar, facilitam a existência de toda a criação. Um novo dia, uma nova semana, um novo mês, uma nova estação, um novo aniversário, tudo incita a renovação. Impulsiona o desejo de mudanças. Traz coragem. Ainda que saibamos que nada muda se não mudarmos. 
É uma ilusão necessária.
Viver em fatias é mais fácil.
Esse fim de ano não fiz planos, nem promessas. Ainda não olhei para frente porque precisei voltar alguns passos atrás. Não tenho como incorporar esse espírito de "novo tempo", quando ainda paira uma egregora negativa de um tempo tão conturbado.
Tentei sair de mim o máximo possível e lançar sobre tudo que vivi, um olhar "de fora", o que me permitiu pedir desculpas para 2013 e compreender o óbvio: vivi o que tinha que viver, protagonizei as situações que tinha que protagonizar, estive com as pessoas que tinha que estar, minha vida esbarrou em vidas que teria mesmo que esbarrar. 
E, agora, consigo ser grata por isso. Se sei que nada é por acaso, então, porque a raiva? Porque a guerra?  Chegar essa conclusão me libertou. Só me resta agora, pedir perdão.
Torço para que meu pedido de desculpas chegue a todas as pessoas que acho que precisam chegar. Aos mesmos olhos que leram minhas palavras rudes.
Peço desculpa pelos momentos em que a soberba tomou conta de mim. Peço desculpa pelas omissões. Pelas farpas jogadas. Peço desculpas por ter sido conivente. Peço desculpa pelas vezes que esqueci que o coração que bate aqui, bate aí. Que a dor que consome aqui, consome aí. Que a vitória aqui significava a derrota aí. Peço desculpas pelas tantas vezes que me vitimei esquecendo do contrário: que a derrota aqui era nada mais do que a vitória aí, ou em algum outro lugar.
Enfim, peço desculpas por ter fingido acreditar que desse lado aí morava gente do mal, enquanto dentro de mim eu sempre soube que aí, como aqui, era gente do bem. Peço desculpas pela guerra de palavras, pela guerra de nervos, pelas variadas guerras, que como toda guerra, foi em vão.
Outras dores profundas me cortavam sem piedade e, então, me agarrei a essa dor menor para me "distrair", esquecendo-me que a dor que para mim era menor, era maior para outras pessoas, assim como maior era a dor da qual eu tentava me distrair.
Também preciso desculpar a mim mesma, pois sei que perdi, pois de onde poderiam ter sido trabalhado bons sentimentos, nascido verdadeiras amizades e colhido boas energias, tornou-se nada mais do que o cenário mórbido de um antigo campo de guerra - feio, frio, vazio.
Sinto que perdi tanto tempo e fiz com que outros perdessem... Nada me convencia, era tudo tão sombrio, e ainda assim eu fiquei. Como diz uma amiga "não aprecio momentos em tons pastéis, prefiro os de tons vibrantes, verdadeiros..." Mas ainda assim, insisti.
Conto sempre  que bons corações se reconhecem, ainda que essa percepção esteja circunstancialmente embotada. Fica aí a minha esperança.
Enfim, que toda essa embarcação de 2013 me perdoe e ancore em terras de bons sentimentos, com tons vibrantes, onde novos afetos possam chegar.
http://www.marcelolopes.jor.br/blog/detalhe/5/marcela-goncalves-de-sousa
 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Pimenta nos olhos dos outros é refresco

O livro "A águia e a galinha" de Leonardo Boff é uma metáfora da condição humana. A história de uma águia que foi criada junto às galinhas e com o passar dos anos passa a acreditar que era uma galinha de verdade, até que um dia aparece alguém que a faz enxergar quem ela realmente era.
Eu amo Boff, adoro esse livro e quem não leu, deveria ler, há ali, uma aula de filosofia em todos os sentidos e uma infinidade de lições.
Entre elas está a de que vemos o que queremos ver, ou o que podemos ver, ou o que nos é conveniente ver (porque, continuando com Boff, cada um lê e relê com os olhos que tem). Bom, a partir do momento que acatamos essa singularidade contida no olhar, ou na forma de olhar, ficamos cônscios da relatividade, senão dos fatos, da interpretação desses.
O professor estuprou uma criança de 8 anos. Fato. Ele é um monstro que precisa ser banido da sociedade. Diz a constituição que todo cidadão tem direito a defesa. Ok. Então esse ser (não) humano terá advogados que adotarão uma linha de defesa e, essa, certamente se dará a partir das bases sociais e familiares lotadas de dificuldade onde, certamente, esse sujeito se criou. Isso evitará o trauma da criança que foi abusada? Não. Isso faz com que esse sujeito deixe de ser portador de alta periculosidade? Não. Fatos são fatos, aceitando-os ou não, em nada serão modificados. Mas os pais são culpados pela escolha da escola? Por não terem percebido nas reuniões escolares nada de diferente naquele professor? E as dezenas de outros pais também não perceberam? E a direção da escola também não? Não, porque não tinha nada a ser percebido, porque ele se portava como um professor, provavelmente atencioso e cordato. Os pais e responsáveis podem ser acusados de uma percepção enganosa?
Se tem uma coisa que fui aprendendo ao longo dos anos foi sobre essa relatividade contida em todo o universo. Mas busco todos os dias encarar os fatos, ainda que eu os interprete da única forma que posso - com os olhos que tenho e a partir de onde meus pés pisam.
Então, em resumo é assim: Uma pessoa mente, engana, ludibria, manipula, usa todo seu poder de sedução e convencimento, enfim, um mentiroso de plantão (sem aspas mesmo). E faz tudo isso, com competência e maestria, conseguindo enredar em sua "trama", dezenas de pessoas inteligentes, cultas, sensíveis. Isso é um fato. Como cada um interpreta? Bom, para uns a pessoa é doente, para outros é safada, para outros mau-caráter, para outros um coitado. O que isso modifica no fato do sujeito ter usado pessoas e brincado com vidas alheias? Nada. 
Acreditar que as pessoas são da forma como nos é conveniente acreditar que são, é algo que acontece muito, principalmente quando a pessoa em questão é pós doutorada em manipulação e nos convence que são mesmo do jeito que nos é conveniente acreditar que são. Agora, crer que nada pode passar despercebido, porque para tudo há indicadores e que só não os visualizamos por opção, é desmerecer o competentíssimo senhor em questão, e exigir uma percepção sobre-humana de pessoas normais.
Então, se o professor não estuprou meu filho, mas estuprou o seu, é porque eu fui atenta aos sinais e você não? Ou seja a responsabilidade é sua antes mesmo de ser do estuprador? Isso é uma baita inversão de valores! É muita vontade de ajeitar as coisas, né não? O pessoa engana 10 mulheres ao mesmo tempo e todas apenas "querem ver o que lhe é conveniente"? Todas? Nem uma escapou? Pelo amor de Deus né? Aplausos para o doutorando, porque o mérito de não deixar pistas, ou, apaga-las com sedução e "lábia" é dele... Mas, é aquela máxima certeira e egoísta de que "pimenta nos olhos dos outros é refresco". Mas e quando a pimenta está também nos seus olhos? Ah tá! Foi tanta pimenta que cegou de vez.
Finalizando com meu caro Boff: "abramos as asas e voemos . Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar."

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Sujeito inexistente

Que de tudo ficam lições é fato, ainda que seja apenas a importante e indiscutível lição de que tudo, realmente, passa. Foi uma fase negríssima! De perseguições contundentes, invasivas e desrespeitosas. Se eu escrevia no blog, me perseguiam com comentários ameaçadores e coisas piores. Eu não entendia para que o ataque se, no balanço geral,  todas perdemos... perdemos sonhos, tempo, e até mesmo dinheiro. Afinal quem não presenteia quando se ama? Uns presenteiam com coisas mais caras, eu, com a revisão de um livro... Fiz com prazer, fiz por acreditar, porque levei a sério aquele projeto alheio, fiz porque o editor era meu amigo, fiz porque ele fez um preço camarada para mim. Na minha mudança de casa me deparei com os 2 depósitos... Quanto desperdício... Enfim fiz e, não valeu de nada, porque sequer aquele projeto era de verdade.
Quando tudo chegou realmente ao fim, vivi meu luto, me desintegrei, e como sempre, levantei. Não foi dor de amor, claro que não, foi dor de ego, tipo aquele dramático: "mentiram pra mim". Mas quem não mente? É... todos mentem... Então, era algo pior. E era. Era uma dor advinda do susto de ter trombado com uma pessoa em quem confiei tanto, a quem me dediquei tanto, a quem me expus tanto e que era um ser inexistente. Assim mesmo, como na gramática tem uma oração com sujeito inexsitente, na minha vida vivi  uma história a dois, sem sujeito. Achei que fosse surtar, não surtei. Achei que fosse chorar meses, não chorei. Achei que eu fosse pegar o carro lotado de munição e fosse até a porta da casa dele, não fui. Achei que eu fosse armar barraco no trabalho dele, não armei. Achei que eu fosse contratar uns capangas para pegá-lo em uma curva qualquer e dar-lhe uma surra, não contratei. E quando me dei conta, passou... Até a minha raiva passou. Passou a ponto de eu lhe indicar um link de algo que seria do seu interesse. Confesso que depois arrependi, porque sei lá eu, o que na face da terra seria, de fato, do seu interesse... 
Ainda sobraram algumas pessoas daquele mesmo harém, umas só pentelham, outras somam. Umas não sei sequer se possuem mesmo aquele rosto ou se são fake, outras tenho telefones e endereço. Umas são uma sombra dessa história toda, que ficam assombrando por aí enquanto o tempo passa...  Com outra dou boas gargalhadas, e já combinamos um encontro no Rio. Na verdade, não tenho boas lembranças desse tipo de encontro... Fizemos todas parte de um mesmo enredo, que tinha como personagem central o mesmo sujeito (inexistente), mas somos indivíduos, viemos de universos diversos, temos conteúdos próprios e bagagens emocionais diferentes. Só que me esqueci disso quando fui, tranquila àquele encontro. Não faz muito tempo, e o cenário foi o mesmo: o shopping da zona norte. Vi que estava curada quando, ao entrar ali pela primeira vez depois de tudo, não senti absolutamente nada. Nem de bom e nem de ruim. O encontro foi desastroso par mim, porque impotente, eu assistia uma mulher se espernear, completamente desequilibrada, com a vida destruída, enquanto em silencio, eu agradecia a Deus pelo fato da minha sorte ter sido outra. Eu saia daquela história terrível, com minha sanidade inalterada. Ela não. Fui solidária a ela, mas não compreendi até hoje aquela dimensão toda. Aquela ali é um poço perigoso de informação, de ódio, de revolta, uma bomba prestes a explodir... Enfim, nem gosto de me lembrar.
Já há muito tempo coloquei na minha cabeça que o que a vida leva é porque não me serve mais. Hoje, feliz, sei que o que eu buscava - gente de verdade - existe, só que procurei no lugar errado. Nunca creio que temos a posse de algo, apenas temos temporariamente, afinal o "querer" é mutável, como tudo na vida. Essa certeza me acalma, ainda que não me permita aceitar falsidades, pois deixar de desejar, é diferente de brincar, premeditadamente, com vidas. Incrível, mas foi tudo tão intenso que só percebi os sentimentos que me invadiram quando deixei de senti-los.
Como dizem:
"Conheço mais sobre o desespero através do alívio. Conheço mais sobre pessoas quando elas estão distraídas de suas máscaras sociais. Por isso, para minha transparência, distraio-me. Exponho-me. Se a vida é trágica para alguns, também conheço esta face dela, apenas não me apropriei do trauma. Se a vida é dádiva para outros, me identifico. Se as coisas não estão fluindo como eu gostaria, tenho a oportunidade de desenvolver meu raciocínio para observar as coisas por outro ângulo.
Quando não há mais para onde correr é quando se aprende a voar."

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terça-feira, 19 de novembro de 2013

Félix, determinismo e livre-arbítrio

 
Acordei hoje com uma sensação ruim deixada pela cena de ontem da novela das 21hs. Matheus Solano em uma impecável atuação quase me fez esquecer que era apenas o personagem de um folhetim (como se nossa vida fosse algo mais que um folhetim...).
Passei décadas da minha vida acreditando que gente assim só mesmo em novela, até que o destino determinou que meu caminho se cruzasse com uma pessoa exatamente assim. O ser humano tem tanta mania de nomear e enquadrar tudo que não consegue explicar, que já decidem que quem é mau caráter, frio, calculista, dissimulado, indiferente ao sofrimento alheio, é sociopata, psicopata e um monte de “ata” por aí. Não dá simplesmente pra dizer que é personificação da maldade? Já que não tem cura mesmo, de que adianta dar nome?
Muitas vezes, em minha vida, questionei porque Deus permitia a existência da maldade em sua criação (e, sem essa da história da Eva e da maçã!). Santo Agostinho se martirizava pensando: “Mas se o mal é criação do homem que é criatura de Deus, então há relação entre Deus e o mal?”
De onde vem o mal? Porque existe gente má?
No caso do Félix ficou retratado em seu desabafo, o quanto o meio familiar desajustado é capaz de danificar o caráter. Será que os pais tem a exata noção do quanto o desamor e a desatenção destinado aos filhos podem fazer destes, futuros monstros, uma máquina de detonar vidas alheias, ainda que não seja jogando bebês na caçamba de lixo, seria jogando vidas de pessoas que não lhes são mais úteis nessa mesma caçamba?
Santo Agostinho tinha pai pagão e mãe cristã fervorosa, criando-se assim, em um meio dualístico. Na adolescência se desvirtua moralmente caindo em profunda sensualidade que, segundo ele, é uma dos maiores consequências “do tal” pecado original. Nesse momento ele adere ao Maniqueísmo que atribuía realidade substancial tanto ao bem quanto ao mal, confirmando assim, o que viveu, achando no dualismo maquineu, a solução para o problema do mal, inclusive do “seu” mal, justificando assim, o seu problema, e certamente a sua culpa. Ao se converter ao cristianismo refuta veementemente o maniqueísmo e passa a defensor ferrenho do libre arbítrio, crendo ser o mal, fruto da liberdade humana mal utilizada. Seria sempre assim, as pessoas tornam-se juízas do lado que lhes é mais conveniente? Não seria isso oportunismo? (até mesmo de Agostinho...).
Felix joga sobre o pai a responsabilidade  pelo monstro que se tornou. Todos os que são lúcidos atribuem a culpa ao meio familiar e social para justificar as monstruosidades que seguem cometendo. “Olha eu te engano, eu minto, eu te faço mal, mas não tenho culpa porque o meio em que nasci e me criei foi responsável pelos impulsos que tenho hoje, sinto muito(sente porra nenhuma!) mas vou te fazer mal." E vamos jogando bebês em caçambas de lixo porque o “papai” não me amou como deveria.
Segundo um estudo recente da neurociência funcionamos na base do acerto e do erro, e da cópia do comportamento das pessoas próximas – principalmente dos nossos familiares. “Por isso a educação das crianças é tão importante. É um momento onde o cérebro absorve uma carga de informações, está sendo moldado, criando parâmetros para saber como se portar, como viver em sociedade.” Sob essa perspectiva Santo Agostinho teria seu livre arbítrio jogado ao lixo.
Ainda estudando muito, eu já quase posso afirmar que a minha crença de que Agostinho estava mesmo errado, e que vivemos em um universo determinista. Mas ainda assim, há de se ter um modo de sermos responsáveis por nossos atos. Caso contrário o caos estaria instalado! Imagina se todos pudessem matar, roubar, mentir, constituir família com dezenas de mulheres, ceder a todos os seus impulsos sexuais animalescos com base no argumento simplista “o meio me impulsionou a agir assim.” E enquanto isso bebês morrem dentro de caçambas, pessoas são roubadas de sua paz, mutiladas em seus sonhos. Ridículo! E covarde!
Como descreveu Cássio, em Júlio Cézar de Shakespeare: “Há momentos em que os homens são donos de seus fados.” Assim como alguns os neurocientistas, creio que o livre arbítrio seja uma ilusão, mas uma "ilusão necessária para a ética" (afinal o que não é ilusão?). Independente de estarmos em um cenário determinista, temos um cérebro, e ele não poderá ser desprezado “porque papai não me amou”, “porque mamãe me abandonou” “porque passei fome”, “porque sofri abusos” e etc. Somos dotados de um cérebro e é ele que pode e deve conduzir nossas ações. Caso contrário, para sempre o mal justificará o mal, o mundo jamais terá chance, e o ser humano estará condenado por toda a eternidade, e, creio que nisso, Santo Agostinho tinha razão – o homem é bom em essência, portanto um dia, estaremos todos ao lado de Deus, inclusive os Félixs, Pedros, Paulos, Antônios, Anas...
 
 


sábado, 19 de outubro de 2013

Apenas uma mera exceção

Andava com uma sensação detestável em relação ao ser humano. Um temor imenso de que todo mundo fosse uma farsa e de uma hora para outra eu fosse me decepcionar e sentir dor. E como não queria pensar sobre,  parece que tudo isso criou mais força, dobrou de tamanho e me dominou por inteira, quase me consumindo. A cada dia me isolava mais. Queria meu mundo, meus livros, meus filhos, meu cachorro, minhas músicas e nada mais. Quase me paralisei, tamanha angustia. Após semanas me sentindo assim, decidi que era hora do balanço.
Trabalho naquilo que escolhi e adoro, tenho filhos maravilhosos, um amor tranquilo. Fora essas coisas "miúdas", cotidianas que, cada qual a seu modo, todos vivenciamos, ainda pulsa dentro de mim uma paz que vem da certeza de que  tudo que experimento aqui é só um pedacinho (ainda que muito significativo), de uma imensidão que aguarda a todos nós. Enfim, independente de todos os imensos reveses, tenho uma vida que faz sentido. Acredito no propósito da minha existência. Porque, então?
Aí, deparei-me (obviamente não por acaso) com uma frase de Miguel de Cervantes: "Ah, memória... Inimiga mortal do meu repouso!" Pronto! Estava aí a razão da minha angústia de tantas semanas. Lembranças. Ou melhor, mais do que lembranças,  memórias ainda que aparentemente mortas, vivas a me dominar. E, apesar de não sangrar mais, não me deixam seguir leve. Uma vivência passada com o poder de me manter prisioneira. Fui cruelmente marcada, como se faz com o gado. (Perfeito exemplo...) Diversos pânicos: de experimentar aquela dor de novo, de sofrer a mesma decepção, de levar outra rasteira, de olhar para outros olhos tão falsos acreditando-os sinceros, de que cada palavra que ouço seja mentira, de que tudo seja uma farsa, de que todos sejam também doentes, desses que parecem normais, mas não são. Desses que dão significado à sua existência a partir da dor que causam aos outros. Fiquei com medo de gente, e nem desconfiava disso. Estava sendo injusta, julgando as pessoas, considerando que a distância de todas elas seria mais segura do que qualquer proximidade, por menor que fosse. Nem uma boa conversa consegui engatar com o professor de literatura durante o jantar da escola. Começo bem, mas em 15 minutos já imagino que ele está ali tentando me impressionar, me manipulando com a finalidade de atingir um objetivo previamente calculado. 
Temi estar surtando. Um namoro bom (pelo simples fato de me fazer muito bem) que quase jogo pela janela porque me embrulha o estômago ao ouvir o que toda mulher adora - frases apaixonadas. Eu passei a recebê-las como um punhal venenoso - a poderosa fala articulada, desprovida de qualquer significado, dita em toda esquina a qualquer uma. Peço-lhe, então, que não as diga a mim, juro que não gosto de ouvi-las, explico que prefiro apenas viver  aquilo que seria dito. E ele não entende, claro. Mas respeita, até que em um momento qualquer, as emoções vêm à tona e ele diz. E nesse momento eu quero ir embora. Eu apago onde todas acendem.
Retornei à terapia. E ouvi o que já sabia. Sofri um trauma. Para falar a verdade não me conformo. Já passei coisa demais na minha vida para aceitar que aquela experiência tenha tido o poder de me causar tamanho mal. Casamentos desfeitos depois de décadas, projetos no ralo, vida recomeçada, e eu, sempre forte e cheia de esperança. Tinha que haver uma explicação para tamanho estrago. Não poderia perder a fé no ser humano. No amor. Na amizade. Na lealdade. Não poderia me perder, perder a minha boa fé por causa de uma breve história. "Breve história, mas com o poder de destruição de uma bomba nuclear pelo fato de ter como protagonista uma pessoa que não é como eu e nem como você." Bastou ouvir isso da minha terapeuta, após 7 sessões para que eu me desse alta. Resignifiquei tudo. Agora creio que possa seguir por outro caminho. Resgatando meu bom senso que sabe que não posso condenar a humanidade por conta de uma exceção... Cruel demais, é fato, com alto teor de periculosidade, também é fato, mas ainda assim, nada mais do que uma mera exceção entre os milhões de seres humanos.
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