O blogger é atualizado de acordo com as batidas do meu coração. É um prazer tê-los comigo.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Que atire a primeira pedra, quem puder...

Muitos casais, em detrimento dos inevitáveis problemas do dia a dia,  continuam felizes após muitos anos de união. Os filhos, já  adolescentes, lhes permitem, novamente, mais tempo para estar junto. Foi assim com Lizandra,   que escreveu ao blog, 48 anos, casada há 18 anos com um homem tranqüilo, e, segundo ela, excelente pai e marido. Ela, por sua vez, tinha prazer em cuidar da casa, dos filhos e dele. Separar sua roupa e deixar junto à toalha para quando saísse do banho. Fazer os bolos e tortas que ele adora e cafuné para ele dormir. Ele por sua vez, nunca permitiu que ela acordasse de madrugada quando as crianças eram bebês, pois à noite, era a sua vez de colaborar. Todas as tardes ela o aguardava chegar do trabalho para que lanchassem juntos. Uma mãe e esposa zelosa, e ele sempre lhe dizia da imensa admiração pela forma com que ela conduzia a família. Só tinha um problema. Ele nunca a satisfez sexualmente. E ela sofria por isso. Tentou conversar com ele algumas vezes, sugeriu que visitassem um médico, que descartando qualquer problema físico, os encaminhou para um terapeuta de casal que nunca foram. Ele não quis. E ela então, sublimou. Ou melhor, tentou e conseguiu por mais de uma década deixar esse “assunto” de lado.
Os anos passaram, os filhos cresceram e ela voltou a ficar sozinha com o marido. Com o tempo mais ocioso, a falta de uma vida sexual satisfatória voltou a perturbá-la. Faziam sexo cada vez mais raramente, e ela, sincera, ainda insistia para que procurassem aquele terapeuta sugerido anos atrás. Explicava-o que sofria com essa falta, inclusive fisicamente, com enxaqueca e insônia constantes. Mas ele não cedeu aos seus apelos. Depois de muito tentar uma solução a dois, tomou uma custosa decisão  - alugou um apartamento, para levar amantes, nunca fixos e sempre desconhecidos.
Um dia, um colega de trabalho do marido, lhe disse sobre esse “boato”, e ele fingiu que não ouviu. A esposa desse amigo contou a ela, e perguntou-lhe se ela não temia que os filhos, já adultos, descobrissem como ela estava conduzindo sua vida. Ela respondeu que não. Pois sempre se manteve fiel ao que acreditou. E principalmente, sabia que o marido era feliz ao seu lado, e que seria assim, até o último minuto de suas vidas. Segundo ela, sua consciência não pesava, pois em primeiro lugar, sempre estiveram os filhos e o marido, e o sexo, em segundo.
Bom, Lizandra, você termina seu email me perguntando o que eu acho. Acho que traição, como tudo na vida, é relativo. Como condenar uma mulher que dedicou sua vida à família, mas infeliz sexualmente, “ajeitou” uma solução como pode? Sua postura foi tipicamente masculina  – separar amor de sexo.  Não é ideal que seja assim. Vocês não vivem uma relação de mentira (a meu ver), mas também não vivem uma relação inteira. A diferença é que ambos são leais aos seus propósitos – você doa-se a família com alegria, responsabilidade e prazer – ele, em contrapartida, sente-se amado, cuidado e em paz. Quando você lhe pediu que buscassem juntos ajuda para o problema que a afligia, ou quando o colega de trabalho insinuou algo, ele não lhe deu ouvidos. Ele foi enganado? Não...
Você poderia tê-lo deixado, seria talvez o mais sensato. Talvez. Mas como você afirmou, sexo vinha depois do marido e filhos. Então... É uma situação muito delicada, mas não cabe julgamento.
O ideal de um casal é que a parceria aconteça na cama e fora dela. No caso de vocês  não aconteceu na cama. Tenho absoluta certeza de que se você tivesse escolha (é, as vezes não temos), você agiria de outro modo. 
Parabéns pela bela família!


domingo, 31 de março de 2013

Carta para Romeu e Julieta



Cara  Romeu e Julieta,
apesar dos mais de 400 anos que nos separam, percebo-os tão atuais que decidi reportar-me a vocês no intuito de compreender como foi protagonizar um amor de dimensões incalculáveis e lealdade indiscutível, evidenciado nos diálogos, entre ambos. Diálogos esses, de extrema exuberância com comoventes versos, eternizados pelo próprio triunfo de uma tragédia onde morrem os amantes, mas não o amor. Dizem por aqui que há muita Julieta se matando pelo Romeu errado, no que discordo, e creio, terei  total apoio. Em 1595 você era apenas uma garota, Romeu apenas um rapaz, morreram para não deixar morrer o amor,  que era dotado de óbvia reciprocidade, e que, mesmo não podendo ser vivenciado, foi palpável e não simplesmente idealizado. Portanto desrespeitoso à memória de vocês, que denominem mulheres em busca de "adoção", obsessivas e obcecadas por "Julietas", e homens, seja lá de que natureza for, de "Romeus". A forma não pode sobrepujar a essência. Como você mesma disse a Romeu: "De que vale um nome, se o que chamamos rosa, sob outra designação teria igual perfume?" Vocês para sempre representarão o  amor, mas entendamos bem - o casal do amor - e não essas caricaturas carentes que derramam sobre o objeto que creem amar, toda a responsabilidade pela sua infelicidade, negando-se a perceber com a alma, a veracidade desse sentimento que, naturalmente, emana do outro, independente de exigências e cobranças. Estranho esse séc XXI não é? Imagino como vocês dois sobreviveriam por aqui... Os casais desconhecem o amor. Banalizam ou dramatizam esse sentimento. Não vejo ninguém que apenas viva e sinta, todos tentam enquadrá-lo. Fico imaginando se algum dia de suas breves vidas, vocês perderam tempo tentando entender o amor, ao invés de simplesmente senti-lo.  Há uma frase de um cantor da atualidade que diz :"Assim que o amor entrou no meio, o meio virou amor", não seria assim? Em minha concepção é exatamente isso.
Certamente você e Romeu queriam ter vivenciado esse amor, por anos e anos - acordar juntos, passear pelos jardins, fazer amor, não é? Não lhes foi possível, e nem assim minha percepção sempre tão aguçada, foi capaz de notar uma palavra de "puro drama" em suas narrativas, muito pelo contrário. Percebe-se sim, palavras de puro enlevo e, em detrimento das dificuldades, dotadas da leveza que todo amor deve conter. Tão diferente do que vemos hoje em dia - onde uma dramatização que beira ao ridículo permeia  relações que foram simplesmente de afeto, desejo, momentos, mas jamais de amor, porque amor é um sentimento de mão dupla, que não termina, e caso termine, é porque foi apenas um engano.
Entendi que vocês traziam dentro de si um dilema: ou embarcavam no amor sem medir as consequências, ou voltavam à realidade. Como o amor e a crua realidade não combinam, a morte foi a melhor solução. Sabe Julieta, hoje em dia a moda para um amor que terminou (porque não era amor), é culpar o outro ou as situações externas. Vocês dois enfrentaram um drama político, social e até mesmo religioso que lhes impediram de viver o amor, mas não de se amar. Porque quando é amor, nada é empecilho. Embarcaram juntos para uma morte em nome desse amor. Hoje em dia isso não exite. Muitos continuam se matando em nome do "amor", mas não é verdade. Matam-se em nome da posse. "O outro não me quer? Me mato". Individualismo é contrário ao amor. Já que é amor, óbvio então que você me queira na mesma proporção em que eu te quero, então, "bora" morrer juntos, na crença de viver esse amor em outra dimensão - uma loucura aceita. Mas já que não é amor, que você não me quer, vou morrer em vida, enterrar meu futuro, viver infeliz para sempre? Ou seja, me enterro por alguém que não me ama? Isso pode ser denominado amor, caro Romeu? Entendo como sendo insanidade, projeção, deslealdade a si mesma, sem contar, a crueldade com o outro que terá que carregar sobre os ombros, o peso da infelicidade que aquele que diz lhe amar, o imputa, por ser mais fácil do que assumir que foi tudo apenas ilusão. E a pergunta final para encerrar essa carta: sinceramente, caros Romeu e Julieta, vocês ousariam sequer pensar em se matar  se duvidassem do amor que sentiam um pelo outro? E então, acham possível que exista essa máxima de  "amar sem ser amado"? Pois partindo do princípio que amor é energia, e que energia é troca, isso torna-se impossível não é? E isso vem desde o séc. XVI... 
Bom, meus caros, infelizmente é essa a noção do amor dos tempos atuais. "Pobres criaturas", creio que sejam isso o que vocês estão pensando nesse instante.

Julieta – Que satisfação podes ter esta noite?
Romeu – A troca com o meu de teu fiel juramento de amor.
Julieta – Já te entreguei o meu, antes que pedisses e quisera fazer-te de novo meu juramento.
Romeu – Queria tomá-lo de mim?
Julieta – Para ser generosa e entregar-to outra vez. Só aspiro à coisa que possuo. Minha bondade é tão ilimitada quanto o mar, e tão profundo como este é meu amor. Quanto mais te dou, mais tenho, pois ambos são infinitos.



sábado, 30 de março de 2013

Nietzsche ou uma mão sobre a minha?


E a história do amor permanece. Um sentimento que carrega infinitas definições. Nunca acatei nenhuma delas, pela impossibilidade, a meu ver, de enquadrar qualquer sentimento. 
Observo tudo, é da minha natureza, mais aguçada ainda, pela formação em filosofia. Impossível  a mim não observar, analisar, raciocinar com justeza em busca de uma lógica. Já cometi a imprudência de tentar catalogar o amor. Sem êxito. Quando eu pensava "Yes! é isso". Vinha a chuva e molhava minha certeza. Consolava-me saber que a chuva não molhava só a mim. 
Não tenho uma visão cartesiana linear da vida, e confesso que tenho um olhar invulgar sobre as relações de amor. Até porque eu tenho uma singularidade de amar o amor, antes mesmo da pessoa. Nunca soube dizer se isso é bom ou ruim. Egoísta, talvez. 
Há muito tempo li uma frase de Quintana "O amor só é lindo quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser". Em segundos escorreguei no arco íris e cheguei ao pote de ouro... Acabava de achar o significado do meu amor. Do amor que eu amo. 
Enquanto eu crescia por dentro em uma velocidade desproporcional aos meus centímetros, eu imaginava que amaria àquele que roubasse uma camélia do pé, e a colocasse, delicadamente, atrás da minha orelha. Era essa minha terna fantasia adolescente. Com o tempo fui entendendo que os fatos são maiores que os atos, e que a camélia poderia continuar na árvore. Quando meus sonhos eram inversos à vida que se apresentava à minha volta, eu imaginava que me sentiria amada ao me enxergar limpidamente, dentro da retina do outro. Também não foi assim. E o tempo passou. E continuei fiel ao amor, e mesmo nos vários lutos que atravessei, antes de enterrar os que me foram caros um dia, eu arrancava o amor com as minhas mãos, ainda sem esperanças, naquele momento. E eu, então, o limpava e guardava-o novamente em algum canto dentro de mim. Nunca desisti dele. Enterrá-lo significava enterrar-me. 
Sempre que o chão fugia sob meus pés, as cores iam sumindo e a melodia desafinando, eu abria a cortina e deixava o sol entrar. Não podia desistir, afinal, o que eu tinha de meu, que não o amor que eu sempre amei? Segui com ele. 
Arrisco-me a dizer que ajudei alguns afetos a, senão se transformar, pelo menos a descobrir o melhor que tinham em si. Acho que não amei, mas ensaiei o amor. Nunca me senti transformada, mesmo desconfiando que fui sim, muito amada. 
Depois da camélia, muitos foram meus ideais de amor, até que no pote do arco íris descobri que o amor que eu amo, está no garimpo do ouro do outro que há em mim. Mas fantasmas rondam... E se ele não souber quem é Nietzsche, nunca tiver lido Fernando Pessoa? E se não souber discutir sobre fé e razão, não divagar sobre a alma? Por longo tempo eu disse NÃO! Absolutamente não! Preciso beber o intelecto do outro, conversar depois de fazer amor, discutir depois de fechar a última página do livro. Mas tenho presenciado coisas do amor que têm me obrigado a rever meus conceitos.  Será que não poderia ser feliz com um abraço demorado e um cigarro acesso depois de fazer amor? Deixaria para conversar sobre Nietzsche no dia seguinte, com algum colega. Não seria melhor fechar a última página do livro e não conversar nada, mas olhar para o lado e ter uma mão que segura a minha?  Será que não posso tudo isso, se aquele que estiver ao meu lado puder me ajudar para que eu me transforme no melhor de mim? Mesmo que ele nunca tenha ouvido falar em evolução da alma e nem imagine o que seja nível de consciência? Será que há coerência possível nesse universo dos sentimentos?

quarta-feira, 20 de março de 2013

Eu amo o amor


E eu passei a vida agarrada a ideia do amor. E amava. Amava o amor. Ou melhor amo. O amor. Assim mesmo. Apenas o amor. O significado do amor para mim. Muitas vezes (para falar a verdade, na maioria delas) estava me relacionando com alguém, talvez até sendo feliz, mas ainda assim, só amava mesmo aquele amor que idealizara... (seria isso uma forma de infidelidade?). O portador desse amor que eu idealizei tinha algumas particularidades, claro, não fosse assim, não teria sido idealizado. A primeira delas é respeitar o amor. Entendendo-o sublime. Reverenciando-o, como eu. Depois a incondicionalidade  - credo, cor, sexo ou raça, profissão, limite do cartão de crédito, erros, acertos, tropeços, anseios e suspiros. E, finalmente, aquele olhar ansioso de quem busca evoluir, superando o que for possível dentro dessa nossa quase implacável humanidade. Esse é o fiel depositário do amor que eu amo. Para quem eu me volto, sem medir esforços, tempo, distância. Incondicionalmente. Inegociável mesmo é apenas a reciprocidade do sentimento. Só isso. Se entendo que amor é energia, é na troca que ele se renova e se fortalece. Tornam-se irrelevante as demonstrações de afeto, de gestos, de mimos e manhas, de trocas de sms e emails, de flores enviadas e recebidas, pois não me refiro a esforços e nem a doação de tempo ou dinheiro. Afinal, o amor limita o ego, caso contrário, ainda não é amor.Tudo isso é tão pouco quando tudo flui de dentro. O lado de fora quase nem existe. O outro quase inexiste, pois ele é apenas a projeção do seu amor, ouvi isso outro dia, e veio ao encontro do que penso. Pode acontecer daquele que guarda em si, o amor que amo tenha seu olhar voltado precisamente para o norte ou para o sul, enquanto eu siga navegando na vida ao léo, sem bússula e sem guias. (Como sou). Mas será imprescindível que almeje, um dia, olhar junto comigo para a mesma direção, porque eu jamais saberia deixar esse amor olhando perdidamente para o nada, enquanto eu, abençoadamente,  estivesse me deliciando com o nascer do sol sob uma paz que quase nunca me deixa. O amor mora na esperança de tornar-se melhor - e, como consequência, um outro também melhor e maior. É assim - uma extensão. Um dois em um. 

quinta-feira, 14 de março de 2013

Ritual do casamento



Muitas pessoas consideram importante legalizar a relação oficialmente através do casamento. Outros não. Isso angustia algumas mulheres (o índice é muito maior entre elas do que entre eles), a ponto de colocar um bom relacionamento em risco, quando ambos não dão a mesma prioridade a esse fato. Mas quantos, entre os que defendem essa ideia, já se perguntaram por que o ato de oficializar a união lhe é tão significativo? Representa o que?
Para que ir ao cartório, assinar papéis, ter testemunhas, se essa não é a vontade de ambos, principalmente na atualidade, onde a lei garante direitos à união estável?
Eu gosto dos ritos e seu significados que demarcam, simbolicamente, fins e começos.  Para mim só por isso se justificam os milenares ritos de passagem, como batizado, 15 anos, casamento, e até funeral. 
As coisas só possuem o significado que lhes atribuímos. Se esses rituais não são realizados de forma consciente, ficam ocos, perdem a razão que é demarcar uma nova etapa da vida. Não é inteligente marchar sempre de acordo com as convenções. Repetindo atitudes, abrindo mão do raciocínio do qual somos dotados. Seguir padrões pré-estabelecidos sem questionar não é viver, é reproduzir a existência. Não somos robôs, apesar de estarmos cada dia mais robotizados.
Se o ritual de consagrar a união matrimonial pela lei, não se justifica para o casal, então não vale à pena o desgaste da relação por algo vazio de sentido. Essa compreensão permite outro enfoque na questão e a partir disso, decisões conscientes poderão ser tomadas a dois. 
A união de dois corações oficializa-se através do amor, do carinho, do companheirismo, do respeito, da vontade livre de manterem-se juntos.
Por mais que dezenas de papéis sejam assinados, mil testemunhas compareçam, padres, bispos e papas abençoem, tudo isso só será suficiente para oficializar uma união legítima, mas completamente insignificante para selar uniões de afeto, pois não “falam” a linguagem do coração, do toque, dos sonhos comuns.  
O amor e a comunhão, libertos de culpa, para decidir o tipo de vida que ambos almejam, valerão sempre mais do que assinaturas, bençãos e testemunhas. 
O caminho mais provável para o sucesso da relação é que ambos consigam olhar para a mesma direção, o que independe de legitimidade.
Porta retratos, álbuns e vídeos de casamentos congelam um momento de celebração, mas só têm sentido quando continuam representado uma vida vivida do lado de fora.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Amor (e dissabor) virtual


Conhecer pessoas na internet é um risco, o mesmo que envolve conhecer pessoas em qualquer outro lugar. Pessoas são sempre pessoas.  Carregam fardos, enfrentam desafios, buscam conquistar seus objetivos, e entre eles está, quase sempre, encontrar o amor. É fácil conhecer pessoas difícil é reconhecê-las, esteja ela no bar da esquina ou na internet. A grande diferença é que nos relacionamentos virtuais há mais conversa, e assim, mais promessas são feitas, um maior envolvimento ocorre e mais subsídio se consegue para “atacar” a presa (se esse é o objetivo), pois quando o encontro acontece, já existirá entre eles, uma intimidade e confiança mais efetiva do que o outro casal do bar da esquina. Pode ser que tudo saia errado e a pessoa não seja aquela que você imaginou de início, mas isso não é prerrogativa do relacionamento virtual. Apostas erradas são feitas em qualquer lugar. Essa busca sempre envolverá risco, pois relacionar-se com o outro é um ato de entrega, onde a precaução costuma ser deixada de lado, estejam longe ou perto. A verdade é que as desilusões que marcam os relacionamentos virtuais, talvez com maior frequência que os outros encontros, têm como maior responsável, o fator carência - a grande doença do século. Falta de tempo, busca desenfreada por dinheiro, status, projeção no mercado de trabalho. Tudo isso coisifica o ser humano, tornando-o frívolo, preocupado em cumprir mil tarefas, esquecendo-se de quem ele é, do que está fazendo com seu tempo, com seus sonhos e com seus amores, geralmente perdidos.  A solidão assola a humanidade, não falo de estar sozinho, falo de sentir-se sozinho mesmo estando ao lado de um companheiro, ou em meio à multidão. As pessoas perderam o hábito de ouvir e serem ouvidas. Até que um dia, encontram quem as escute, geralmente em uma noite solitária, em que, de frente para o computador busca-se companhia,  e aí, sua carência já grita tão alto, que as deixam surdas para as evidências, tornando-as incapazes de perceber tolas seduções. Fato esse que seria tão evidente, se elas estivessem inteiras, supridas em suas emoções. E aí, o resultado disso, são pessoas usurpadas em seus sonhos, mutiladas em suas fantasias, feridas na alma. 
Eu sou uma defensora dos relacionamentos virtuais. Onde as pessoas têm mais coragem de falar, onde o outro te escuta sem pressa e você fica literalmente a dois, podendo apenas ser. A questão é que antes de sair em busca de uma relação de amor é preciso amar-se. Estar inteira é a única maneira de escapar de ser mais uma tão falada "vítima do amor virtual", produzido pela infelicidade, carência, solidão, baixa estima. Só estamos preparados para entrar em uma relação virtual, quando temos uma vida social, e outros pretendentes de "carne e osso"  e, ainda assim, o coração insiste em bater mais rápido quando escuta um simples aviso de um novo e.mail em sua cx postal. 
Qualquer relação a dois para ser saudável, precisa ser decorrente de uma opção, jamais da falta de opção, e quando o relacionamento é virtual, em minha opinião, o cuidado precisa ser redobrado, porque o terreno já é naturalmente propício à ilusão.  

sexta-feira, 8 de março de 2013

Algumas vezes rã, noutras escorpião


A rã e o escorpião é uma fábula escrita por Esopo no século VI aC. Eu era menina a primeira vez que a ouvi e,  meu coração puro, não me permitia entender como alguém poderia causar mal a uma pessoa que estava apenas lhe auxiliando.  Em várias ocasiões da minha vida, fiz dessa fábula uma reflexão para, finalmente, agora entender que uma ação depende de algo muito mais intenso do que simplesmente a vontade ou a força dessa vontade.
Segundo o conto houve um incêndio devastador na floresta, matando centenas de animais, muitos deles carbonizados, outros afogados ao pularem no rio no afã de salvarem suas vidas. O escorpião avaliou rapidamente os pós e contras enquanto olhava várias rãs que agilmente atravessavam as águas do rio, e, decidiu, então, propor a uma delas que salvasse sua vida. A rã,  temendo pela sua existência explicou os motivos óbvios pelo qual temia aceitar aquela proposta, afinal, o habitual é que o escorpião a picasse e ambos fossem levados ao óbito.(A tal da evidência). O escorpião rebateu seu argumento, dizendo que se estava justamente pedindo ajuda para se salvar, como poderia querer matá-la se, invariavelmente, sem ela para lhe levar, ele morreria afogado? (Intenção X Impulso) Enfim, a rã se convenceu, afinal, não haveria mesmo razões para que o escorpião implorasse pela sua ajuda se tivesse o intuito de matá-la.(Vemos o outro através do que temos dentro de nós). Tratado o acordo, o aracnídeo subiu nas costas da rã e navegou tranquilamente pelas águas por um período... de repente, o contato com a pela macia do corpo de sua salvadora, inquietou o escorpião que tentou se distrair observando a rã nadando, a água e a outra margem do rio, onde finalmente estaria seguro. Mas, algo deu errado "em seus planos", e em um impulso fora de controle, ergueu sua calda e picou a rã, morrendo os dois afogados. E ele estava à beira de ser salvo...
E assim somos... portadores de gestos irracionais, impulsos descontrolados, atitudes impensadas... tudo parece sem fundamento, apenas ações julgadas como levianas, irresponsáveis, desumanas, mas não é assim... A maioria dessa atitudes são amparadas por um inócuo instinto, ou regidos por dogmas e crenças não questionadas, e também por uma série de heranças, e como toda ela, inerente. Mas o inerente pode ser negociável. Ou não? Bom, o que me alegra nessa fábula é a certeza de que a essência é maior que tudo, não fosse isso, o escorpião não teria matado a rã. Portanto, resta uma grande esperança para as boas essências humanas, confirmando que, o modo como agimos, nem sempre define quem somos, e isso é um alento. 
A arte repete a vida, e essa fábula está aí em todo canto.  É muito difícil escolher um caminho a seguir, não sei quando fui escorpião, mas sei as vezes em que fui rã (mas nem por isso vítima). Creio que ainda desempenharei algumas vezes esses papéis durante a minha vida, e talvez o correto, fosse desempenhar o papel da rã, apenas uma vez, para nunca mais se permitir repeti-lo, afinal, para que serve a razão? Sinceramente, ainda não descobri... Só sei que ainda serei rã dezenas de vezes, primeiro porque não deixo um semelhante (por menos semelhante que seja) pelo meio do caminho se posso acolhê-lo, e segundo porque só se vive, vivendo.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Quem disse que felicidade segue algum padrão?



Como posso ser feliz? Pilhas de livros de auto-ajuda. Sempre em vão.
Felicidade não é um bem que vamos conquistar se cumprirmos algumas regrinhas básicas. Serão felizes os mais determinados, ou aqueles que meditam, ou os que não bebem, não fumam, não comem carne, a esses grupos, o reino da paz, da harmonia, da sonhada felicidade. Nada disso. E aí você casa com o amor da sua vida, têm filhos saudáveis, sua carreira vai muito bem, obrigada, fez aquela plástica de nariz e a lipoescultura, comprou aquele carro maravilhoso e ainda viajou a dois para esquiar em Aspen... (bom, eu ficaria com o amor da minha vida, filhos saudáveis, carreira, uma biblioteca inimaginável, a compra de um sítio para construção de um asilo modelo, e uma viagem a dois para qualquer lugar que eu ouvisse os grilos e  visse a lua, enfim... felicidade não tem molde). Bom, prioridades acertadas: sou feliz! 
E instala-se a terrível decepção. Quem disse que felicidade segue algum padrão? E caso seguisse, quem ditaria esse padrão? Tudo é absurdamente relativo. A tal almejada felicidade não "vinga" por uma condição humana. Somos naturalmente faltosos de algo que não podemos nomear por uma questão quase estrutural - incapacidade de silenciar-se, ouvir-se, sanar-se. Quem não sabe do que precisa não tem como buscar. É isso. As previsões da vida plena de felicidade falham porque não conhecemos nossas reais necessidades, e nos guiamos pelos desejos, daí vem a sensação de falta. Mas objetivamente tudo está suprido, não há falta...  Eu até posso ver a lua do vão da janela enquanto leio Fernando Pessoa, ou...prioridades respeitadas, eu até tomei vinho em Paris enquanto olhava vitrines... E então... Quem vai levar a culpa por essa sensação de falha, de falta, de ausência? Para cada época uma explicação - desde Platão, passando por Niesztche, Gramsci, chegando a Gikovate ou Shinyashiki, e o final é sempre o mesmo - o coração funciona muito além da razão. Felicidade não é uma conquista dos merecedores. Ela simplesmente é um estado, sei lá como ou porque acontece. E, muitas vezes, quando aquela felicidade nos acomete e o coração fica quente, sinalizando que está absurdamente vivo dentro do peito, nos questionamos “quem é essa pessoa que aqui está?” É isso mesmo... Dá-se uma crise de identidade ao vivenciar esse estado de plenitude... Aceitamos a infelicidade muito bem, nos condenamos a seres não merecedores, nos punimos e quando a felicidade chega sem aviso, entramos em uma crise de identidade e corremos o risco de que ela se vá novamente. Para ser feliz aí vai uma dica que li e gostei: “Agüente nem que seja por um instante o amor que não se compreende, que explode qualquer cenário, que nos leva a habitar o mais forte que nós mesmos".

Para mim, Vinicius de Moraes dá a definição quase perfeita - A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. É preciso encontrar as coisas certas da vida, para que ela tenha o sentido que se deseja. Assim, a escolha de uma profissão também é a arte do encontro, porque a vida só adquire vida, quando a gente empresta a nossa vida, para o resto da vida.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

A outra parte de mim


Uma sensação estranha de não pertencimento tem preenchido um vazio que eu não tinha. Vazio nem sei de quê. Ou seria nem sei porque? Nunca tive medo de mim. Sempre enfrentei meus fantasmas de luz acessa. Enquanto o mundo fazia barulho lá fora, eu me aquietava por dentro. Fugir sem saber para onde ia, já me levou a lugares piores que eu mesma. Não me arrisco mais. Tenho opção? Passei do tempo. Ou o tempo passou... Tem tempo para esperar? O melhor lugar é perto de mim. Mas antes preciso saber onde estou. Onde estou?  Escuto o buzina do carro e me assusto. A música alta me desperta e tento retornar para mim. Ouço as vozes ao meu lado, conversas soltas, sorrisos que tentam me fazer sorrir. Vivo à parte da vida que vivo. Alheia. Alguém me busca incansavelmente e não me acha. Mas estou aqui, você me toca, e eu pareço evaporar. Absolutamente ausente de onde estou presente. Desculpe, mas nem eu sei onde estou. Devo estar em algum lugar. Tenho vivido em dois mundos, em um existo, a outro pertenço. Ouço o beijo estalado, mas não posso senti-lo.  Sentir está no mundo a qual pertenço. Mas que mundo é esse? Recebo propostas, mas não me convenço. Quero voltar para casa. Entro no carro e por um segundo escuto a música animada, enquanto no outro mundo que roubou meus sentidos, ouço Villa Lobos.  Tento me levar para casa, enquanto procuro a chave na bolsa e mais uma vez percebo que nem eu mesma sei de mim. Olho no espelho e me vejo - então aqui estou eu! Mas não estou. Mais uma noite que eu tento e não consigo. Me sobram sentimentos. Mas não posso senti-los. Preciso me trazer de volta a esse mundo onde existo. Há carruagens oferecendo para me buscar. Mas chegam sempre atrasadas. Não quero companhia que não seja a minha. Preciso da outra parte de mim. 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

"Encomendai o caso a Deus, Sancho"

Depois de me contar como se deu sua separação há 16 anos, quando o marido a abandonou com uma filha de três meses para ir viver com outra, eu lhe questionei de forma impulsivamente simplista (divergindo do que creio ser a vida) se naqueles 12 anos de relacionamento ela não percebeu que o marido era um mulherengo. E ela respondeu: "Mas ele não é mulherengo, ele apenas se apaixonou por outra." Fiquei surpresa com sua afirmação principalmente após ouvi-la narrar que passou os dois anos seguintes à separação agredindo-o  verbal e fisicamente - razão X emoção.  Quando somos magoados é preciso muita maturidade para não enquadrar o outro, condenando-o definitivamente. 
Na concepção dessa amiga, as pessoas  nascem infiéis, e morrerão assim. Eu não gosto de sentenças definitivas, é certo que todos temos tendências, mas basta motivação e o  padrão de comportamento poderá ser modificado. Somos seres inacabados, temos chance, e não fosse assim, de que valeria a vida? 
Convivi com a infidelidade  antes mesmo de perceber o mundo. Não entendia nada daquilo, mas sentia  o estrago dentro e fora de mim. Enquanto isso, eu crescia e desejava ter nascido longe daqueles telefonemas que tocavam de madrugada, longe das horas extras, longe das viagens de última hora, longe daquele mundo de invencionices. E eu, temendo me afogar nas intermináveis falsetas, me agarrava em minhas tábuas imaginárias que me levavam para a outra margem, onde o sol sempre nascia. Jurei vingar todos os homens. Nunca vinguei. Seria preciso coragem para ser o que eu não era. 
Apesar de, cada dia mais, acatar o determinismo que nos é imposto por diversos fatores, uma parte de mim defende, por experiência própria, que viver pede dedicação. Sobreviver é mais que viver, muito mais.   Somos compelidos, pelos padrões, a estagnar na caminhada. É preciso consciência  para não atrasar a evolução de todo o universo. Somos parte de uma engrenagem, somos responsáveis por nossa existência.  
"— Encomendai o caso a Deus, Sancho — tornou D. Quixote — que tudo se fará bem, e talvez melhor do que pensais, que não bole folha nas árvores sem a vontade de Deus." Mas ainda assim, é preciso empunhar nossas espadas. Creio que Ele anseie por nossa intervenção consciente, afinal, não é assim que educamos nossos filhos?
Sempre temi passar a vida estacionada no mesmo lugar, com os mesmos medos, os mesmos erros, os mesmos dias nublados. 
Eu não sei se, de fato, nascemos infiéis, mentirosos, manipuladores, etc, mas entre as pouquíssimas certezas que tenho na vida, está a de que ninguém está condenado a morrer tal qual nasceu.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Morri ontem

Morri em Santa Maria ontem. Quem não morreu? Morri aqui, na minha casa, em frente a TV, agarrada a uma almofada. 
Morri com cada um daqueles pais. Foi-se ali, um pouco dos meus filhos também, em uma solidariedade involuntária, simplesmente, por imaginar que aquela dor poderia ter sido minha.
Uma nuvem de fumaça negra arrancou para sempre páginas de centenas de vidas, sufocando o futuro de quem ficou. Todos seguirão avulsos.
Depois de horas de terror, o fogo foi apagado, a fumaça foi se dissipando, mas a morte se instalou com sua implacável eternidade. Vidas corrompidas.
E continuei morrendo ao ver os olhos desesperados de um avô, ao lado do filho que buscava pelo filho...
E continuei morrendo ao lado daquela mãe que esfregava compulsivamente uma mão na outra segurando um terço entre os dedos.
E continuei morrendo porque tenho filhos que tantas vezes demoram a chegar em casa.
E continuei morrendo ao lembrar que  a primeira coisa que faço ao entrar em qualquer ambiente fechado é tentar localizar a saída de emergência.
E continuei morrendo pelas vezes que dizia aos meus filhos que fizessem o mesmo e ficassem sempre o mais próximo possível das portas de saídas. Mas, será que eles, como tantos outros ficam perto do palco, embaixo da banda? Talvez fiquem... Perdi a coragem de perguntá-los sobre isso.
Morri de vergonha porque estava sofrendo por um engano meu, enquanto pais perdiam pedaços seus.
Morri de vergonha porque há poucos dias atrás eu chorei por uma simples viagem desfeita...
Morri de vergonha pelo tanto que acalentei abraçar um corpo recém-amado enquanto pais buscavam reconhecer entre os mortos, corpos que geraram, alimentaram, embalaram, acariciaram, amaram desde sempre e para sempre...
Morri pelos pais que não poderão mais comemorar porque seus filhos passaram no vestibular.
Que não irão dançar com eles, a valsa em suas formaturas.
Que não segurarão netos.
Na dor dilacerante de entranhas desfeitas que assisti nesse domingo, senti vergonha das minhas pequenas dores, e nesse exato momento, elas perderam o sentido, e se desfizeram.
Apesar do sofrimento que une todos aqueles pais de Santa Maria, creio que haverá diferença em cada dor sentida - existirão aqueles pais (divorciados ou não, ricos e pobres, desempregados) que guardam vídeos de momentos protagonizados ao lado dos filhos que morreram - momentos de sorrisos largos, brincadeiras, demonstrações de amor, abraços espontâneos de quem conduziu a vida com pequenos gestos de afeto e outros que terão poucos sorrisos para guardar.
Porque quando a presença vira ausência o que sustenta são as lembranças do que foi e, quando os significados tocam a alma (de quem se foi e de quem ficou), têm o poder de ressignificar o que poderia ter sido, imortalizando sentimentos e sensações para toda a eternidade.  
A vida é apenas um sopro, somos tanto e tão pouco... a dor que bate lá, pode sem aviso, bater aqui. 
Minha solidariedade e compaixão por cada um dos corações  desses pais que foram mortos, e ainda assim, precisarão continuar  vivos...








domingo, 27 de janeiro de 2013

Ressignificando.


Hoje, 29/10/2012, faz exatamente um ano que "uma" das dores que a vida me apresentou, bateu à porta. Lembro-me naqueles dias, em que, arrastada fui a um sítio lindo com meus filhos. Tinha um lago grande e ajoelhei-me à sua beira, mergulhei minha mão na água fria. Quase com medo, olhei e me vi dentro do lago, e, mesmo naquela água tão límpida, meu reflexo estava distorcido. Era a sombra de um futuro que não existiria mais. Havia ainda tanto daquela vida que não seria vivida dentro de mim. Os bougainvilles coloridos em torno, mesmo belos, estavam vergados, como eu. O sol se pondo, lindo, rabiscando o céu azul com nuances de  vermelho e rosa, prenuncio de um entardecer de primavera. Tudo ali era de uma cadência que acariciava a alma, tão diferente da minha vida naquele momento, onde eu buscava desesperadamente encontrar uma simetria. Sentia-me ferida e frágil. E entendi com o tempo que estar ferida e frágil, geram mais ferida e fragilidade.

Sabia que eu era livre para acreditar nas minhas escolhas, e que, o que minhas atitudes mostravam era aquilo em que eu acreditava. Faltava redescobrir no que eu acreditava naquele momento, para fazer as mudanças e recomeçar. Foi o que fiz. Em um dia de chuva forte, desci as escadas da minha casa e parei sob ela. Enquanto os pingos grossos e gelados pareciam furar minha pele e congelar meu sangue, eu pedia a Deus que, por favor, lavasse a dor.  Com o tempo, aquela sensação de imperfeição e inutilidade foi dando lugar a mim mesma e percebi que eu começava meu caminho de volta e relembrei aquilo que sempre defendi - todas as decisões nascem daquilo que acreditamos ser, e mostram o valor que damos a nós mesmos.
Eu sabia que em algum lugar dentro de mim estava a verdadeira paz, e que eu não dependia de nada para encontrá-la. Admiti meus erros, me perdoei, libertei a dor e me agarrei à crença que tenho de que não há erro que não possa ser corrigido e nem transgressão que não possa ser perdoada, e, nesse momento, voltei a escutar sons, sentir cheiros, ver cores. Voltei à vida. Ao abandonar a posição de vítima signifiquei aquela dor, ressignifiquei minha vida e segui com a coragem de sempre.
Li certa vez que, em todas as dificuldades, aflição e perplexidade, Cristo chama-nos e suavemente diz: "Meu irmão, escolhe outra vez." 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Eu poderia tentar, talvez até tente...

Quase me acostumei a olhar para certas pessoas de uma forma da qual elas não eram. Olhos verdes esmeraldas, eram violetas, fartos cabelos encaracolados, eram ralos, sorriso largo que nunca sorria, descontração na voz sempre muda. Nada era como eu via. Mas eu juro que via. Nada era igual. Seu olhar não me explica o que realmente é, e o que só parece ser. Fomos incapazes de existir. Não sangrei mais. Ninguém acorda. Tenho perdido as paisagens e ando nos atalhos que alongam os caminhos. Não me deixam sozinha e sinto que aos poucos me refaço e aos muitos, me desfaço. Ouço música sem ouvi-la e ainda assim, somo no seu compasso. Para amar há de se observar. Quando apenas se é amado, melhor não. Ao amar, nada subtrai, os maiores defeitos viram pó. Ser amado (ainda) sem amar (porque dizem que o amor pode nascer), é olho na espreita, por detrás do vão da porta, esperando um fio de cabelo fora do lugar para, aliviada, declarar a si mesmo "viu porque não o amo?" Mas em frente ao espelho, não há engano possível...  
E a campainha toca pontualmente às oito, e a flor entra, linda, enfeitando meu dia, amo flores, mas como faço para conseguir amar o que está por trás das flores? E o telefone toca dezenas de vezes, a voz firme tenta me coroar rainha, enquanto sequer voltei meu olhar em direção ao castelo... O corpo carente se contrai diante do olhar engessado de desejo, contrai mas se retrai, e volto para casa. Sorrio frente a tantas declarações feitas desavergonhadamente na presença de tantas pessoas e penso com raiva jogando para quem me ama a responsabilidade por não amá-lo: "Porque você não consegue me convencer? Incompetente! Preciso disso, não vê? Que merda!" Por fim, tudo aquilo  enternece. Mas, só enternece. De alguns escuto que amor é treino, é fazer uma escolha e permitir ser amada, e aguardar pacientemente que esse mesmo amor nasça em você, podendo finalmente amar e ser amada. Porque não acredito nisso? Eu poderia tentar, talvez até tente... Acho tudo tão irritantemente racional... E eu, sempre tão intensa e passional.  Eternamente dividida entre o que é e o que deveria ser...
Como diz Pessoa - "Este perpétuo analisar de tudo é que tira a inocência verdadeira"
Nunca quis amar o belo, o perfeito, o incólume, aliás nem nunca quis amar. E, de repente amei. Mas posso (des) amar e (re) amar, porque viver é (re) criar.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Minha latinha de refrigerante

Quando criança eu adorava brincar de significado/significância - olhava para uma latinha de refrigerante  e imaginava o que mais ela poderia ser além de uma latinha de refrigerante - um carrinho, um foguete, um cachorro. E nada me escapava,  era divertido reinventar as coisas. De alguma forma segui fazendo isso. 
A destreza com que recoloco, transfiro, remanejo acontecimentos e pessoas  em minha vida ainda me surpreende. A segurança com que convido alguém a ocupar o topo da minha alma é a mesma usada quando estendo-lhe a mão e convido-a a descer e se retirar. Eu me concedo sentimentos de segurança. Ainda sou um pouco dona do meu universo. Além do que, me é inerente o sentir-me extremamente livre. Desconheço dependências, e,  nas poucas vezes que digo "preciso de você" assusto-me e recuo. Sei que não preciso, apenas quero. Eu sempre vou seguir, independente das pessoas. 
Quando o dia nasce, nasce com ele outro de mim, em um processo diário de reconhecimento "do ser e do vir a ser". Para mim, o segredo para se viver bem é adaptar-se. Minha capacidade de adaptação é imensa. Quando eu era casada, temia dirigir na estrada, detestava fazer compras de mercado sozinha, tinha preguiça de levar o carro para revisão e não concebia a ideia de dormir sozinha. Com poucos dias de solteira fazia tudo isso com a mesma naturalidade com que abro meus os olhos pela manhã. As ideias e as pessoas só me fazem falta enquanto concedo-lhe esse direito, mas no momento em que eu decido, tudo que era deixa de ser, e confesso, que até eu me assusto com a solidez que isso se dá. 
Eu tenho sonhos, claro, mas muitas vezes desfaço-o ainda no ar, imagino que é tão frustrante quanto abortar o lançamento de um foguete, mas da mesma forma, necessário. Meço muito bem se o ganho possível é maior que o prejuízo provável. 
Eu ressignifico o mundo que me cerca ou me reinvento para esse mundo, calmamente, enquanto tomo um sorvete. A frase do  crítico francês Andre Gide -"As coisas apenas valem pela importância que lhes damos"  norteia minha vida e relações. É simples viver. Difícil é quando se faz resistência à vida. A maioria vive do que virá - serei feliz quando alguém chegar ou alguma coisa mudar. Fatores externos nunca deveriam ser determinante ao bem estar de alguém. Isso é óbvio. Basta ver exemplos  mostrados na TV - a mãe que perdeu seus 4 filhos em uma tragédia natural, abriu uma creche para cuidar das crianças que ficaram órfãs, e conta isso com sorriso no rosto, enquanto a outra perdeu o marido na mesma tragédia e tentou o suicídio.
Dependência gera controle. Controle é sempre ilusório. A conquista, seja ela de que natureza for, só se dá verdadeiramente, quando se oferece a liberdade. A mão que liberta é a mesma que recebe. 
Sempre vou transformar minha latinha de refrigerante em um móbile bem bonito, porque minha vida quem cria sou eu. Esse poder é somente meu.

"Não: Não quero nada. Já disse que não quero nada. Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer" (Fernando Pessoa via Álvaro Campos.)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Outra flor, outra dança, outra música, outro amor


Dizem que felicidade não existe, que existem momentos felizes. Conclui-se então, que tristeza também não existe, que existem momentos tristes. Portanto, confirmando, vida é alternância, onde estamos todos sentados em nossas gangorras, submetidos ao eterno ir e vir dos acontecimentos. À mercê? Sim... à mercê.
Compreender e aceitar isso não trás felicidade, mas evita brigas com o vento impendido-nos sentir a brisa.
Na contra mão do determinismo, nos foi concedido total e absoluto direito ao nosso sentir. Não há destino para os sentimentos. Ao senhor e todo poderoso destino cabe nos presentear com dias de sol ou chuva, e a nós, decidir se vamos sorrir ou chorar sob a água fria e os raios quentes. Sentimentos são negociáveis, e isso é confortante. Não sabemos o que vem de encontro a nós, mas podemos decidir como receber cada acontecimento - se com uma vassoura atrás da porta ou com os braços abertos. 
Exceto o que está determinado, o resto é escolha. Tão óbvio... Faz-se necessário um exílio interno para que determinemos o que não está determinado.
A ilusão, é um forte aliado ao estado de felicidade. Talvez seja um braço frágil, ainda não sei, mas percebo-a bem útil. Excesso de realidade faz com que a vida torne-se um constante fardo. Sonhar permite seguir de mãos dadas com desenrolar dos dias. 
É certo que em um momento qualquer, a ilusão se desfaz (exigindo substituição) e desaba a maldita realidade sobre você, deixando-o atordoado em meio a névoa ainda carregada do cheiro doce daquilo que poderia ter sido, e aí, você se entrega ao desalento, e dorme de roupa e maldiz a sua sorte e se desfaz em lágrimas, quando, de repente o sol nasce, indiferente ao seu dia, até então, inegociavelmente cinza. Hora de escolher. 
Eu sempre opto por outro sonho - outra flor, outra dança, outra música, outro amor. Porque no fundo, no fundo, a vida é simples assim.
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