O blogger é atualizado de acordo com as batidas do meu coração. É um prazer tê-los comigo.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Cardápio de amor na internet


Li hoje uma reportagem sobre o promissor mercado de sites de relacionamento que está por aí, a serviço do amor. Eu sou sabidamente uma defensora dos relacionamentos virtuais, primeiramente por uma questão pessoal, já que amo antes de tudo, aquela famosa "beleza interior", e depois por uma questão prática e geográfica, já que abrange um leque maior de possibilidades.
Mas percebo que esses sites já embarcaram nessa ignóbil "viagem capitalista", e no afã de atrair mais clientes,  vão criando compulsivamente serviços diferenciados, perdendo sua mais nobre função - a possibilidade de reconhecer-se no outro, antes de conhecê-lo em detalhes. Racionalizando, enquadrando, objetivando o que deveria ser apenas sentido.  Os sites hoje, são verdadeiras vitrines humanas. Os candidatos passam por uma profunda anamnese onde nem mesmo aquela tatuagem feita na adolescência, escapa. Oferecem um minucioso cardápio onde é você mesmo quem monta cada item que deve compor a pessoa que você desejaria amar. Pode isso? Pode, aliás tudo pode, mas perdeu o significante e o significado. Tornou a busca vazia. Assassinou o sentido, literalmente. 
Cor do cabelo, peso, altura, renda mensal, cor da pele, religião, preferência musical... Tudo lá à disposição. Basta escolher. Um convite ao preconceito. Eu já não seria mais candidata a esses sites, porque a única coisa que tem o poder de me conquistar  não tem cor, não tem sexo, não tem peso, nem altura... é a alma. A sensibilidade, por exemplo, que eu poderia expressar em uma frase escrita durante um bate papo,   nunca iria ocorrer caso o candidato em questão, tivesse optado por uma mulher sem tatuagem. Na contra mão do que é objetivado, esse  rol imenso de possibilidades, impossibilita o verdadeiro encontro. É vedado o reconhecimento. E porque aquela pessoa não tem o mestrado exigido no seu cardápio você perde de conhecer uma alma nobre. E porque o outro não tem a renda mensal que você quer que ela tenha, você perde de conhecer um ser humano inteiro.
Em meio a tantas exigências você está  se fechando  dentro de seus próprios dogmas e crenças, ou seja, rodando em círculo. Buscando semelhança em excesso e abrindo mão do grande aprendizado contido nas diferenças. Um atraso na evolução de todos nós. Você se protege e deixa de experimentar. 
Sem contar que você poderá ser privada de descobrir que por trás daquela pessoa misteriosa está um ser humano nobre, que em detrimento de tantas diferenças entre vocês, socorre cachorros que vivem sobre uma laje quente. E mesmo que tudo dê errado, o que vale é olhar para trás e certificar que de tudo, fica uma história que enriquece a vida. Dor de amor, todos vamos passar. Decepções, frustrações, mágoas todos estamos sujeitos, mas o que vale é o que ficou de belo e verdadeiro, daquilo que não pode mais ficar. 
"Eu quero amor feinho.

Amor feinho não olha um pro outro.

Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais." (Adelia Prado)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Quando a chave gira



Um dos grandes aprendizados da minha vida é conviver bem com as diferenças. Respeitá-las é algo inegociável no meu mundo. Gostando ou não, respeito e ponto final.
Mas tenho algumas dificuldades extremas que por vezes passeiam dentro de mim. Ficam latentes, e eu luto até onde posso para que permaneçam assim. Não gostaria, impotente, de presenciá-las jorrar em direção ao outro. Pertenço ao time que acha que desculpas devem ser evitadas, portanto prezo o fato de não precisar pedi-las a ninguém (mas nem sempre obtenho êxito, claro). Geralmente não me permito aquele “momento estrela” onde jorra falta de educação para todo lado, prefiro sempre, sair de cena.
Não sirvo de exemplo para muita coisa, mas sem falsa modéstia, gostaria de ter a mim mesmo como amiga. Tenho imenso prazer em exercer essa função. E o que é feito com prazer, costuma ser eficiente. Perco noite de sono ao lado, ando a pé do Oiapoque ao Chuí, seguro firme na mão quando o mundo inteiro já virou as costas. Amores meus não ficam só. Jamais. E, entendendo que relação de amor é, antes de tudo, uma relação de amizade, estendo isso aos meus relacionamentos afetivos. Deixo qualquer coisa para estar ao lado. Posso negar o convite para uma festa, mas jamais para um dia cinzento.
Não é tão fácil encontrar quem chore junto.
Mas a mesma ênfase que dou ao reconhecer em mim uma qualidade, repito ao reconhecer em mim um defeito. Quando uma chave indecifrável gira dentro de mim, pum! Morre a pessoa, protagonista daquela amizade e/ou daquele amor, ainda que permaneçam em mim, os sentimentos. Com a mesma intensidade com que viveu em mim, deixa de viver. Como gostaria de compreender o que acontece dentro do meu coração... Mas não consigo! O que aciona essa chave? Desconfio de algumas coisas, mas não sei ao certo.
Só permaneço incondicionalmente ao lado, quando algum tipo de fagulha do sentimento alheio, ainda chega até mim, pode estar fraca e esporádica, mas sou capaz de sentir se é verdadeira. Se for, não desisto nunca. Sentimentos não se comparam, não existe "toma lá, dá cá", mas existe algo que, também não sei explicar, é imprescindível para nutrir a história e seus protagonistas. Quando não há, definha-se
Algumas vezes aconteceu essa morte. Eu nem percebi... Decepcionei-me (e também não sei dizer porque) uma vez, duas, na terceira, tudo – a situação e a pessoa - já me ficaram indiferentes. Não pensei mais no assunto. E quando um dia o encontrei, já era um estranho para mim. Conversou, me buscou de todas as formas. Foi em vão... Eu tentei, briguei comigo mesmo, lutei contra a chave, quis deixar tudo de lado e recomeçar, mas já era tarde. O sentimento ainda estava ali, só que passou a ser  impessoal. Passara a ser, digamos, coisa minha. Só minha. Do fundo do coração, eu não queria que fosse assim. Mas é involuntário.
Sou incapaz de desejar qualquer coisa de ruim à pessoa em questão, primeiro porque não consigo mesmo desejar mal ao meu semelhante, e segundo porque desejar é um verbo que pede complemento - “quem deseja, deseja algo a alguém” e esse alguém, simplesmente passa a ser sujeito inexistente, por mais que eu lute e sofra por tudo isso, que apesar de  ser tão meu é, ao mesmo tempo, tão inerente à minha vontade.
Perdoar é fácil. Louco de quem se acha no direito de não perdoar. Aliás não me refiro aqui a culpas, julgamentos e absolvições, afinal, quem sou eu para tanto? Só me refiro  mesmo a essa maldita chave que gira, e faz esse "algo" acontecer dentro de mim eliminando pessoas, sem que eu tenha sequer tempo de decidir se é isso que quero ou não.  

quarta-feira, 10 de abril de 2013

"A hora do sim é um descuido do não"

"Tem mulher que dispensa o cara da musica do Roberto Carlos, pra ficar com o cara das musica do Mr. Catra..."
Achei graça quando me deparei com essa frase no facebook, e, jogando para o alto qualquer filosofia, é isso mesmo que acontece muitas vezes. O cara da música do Roberto Carlos, pensa em você toda hora e ainda te acorda no meio da noite pra dizer que te ama, enquanto o Mr Catra fere toda e qualquer mulher na "cama, mesa e banho". 
Analogias à parte, a verdade é aquela de sempre - não há razão no amor. Quantas vezes temos à nossa porta (para que não dizer aos nossos pés), aquele homem disponível, apaixonado, cavalheiro e você simplesmente diz não, enquanto as amigas ponderam, incansáveis aos seus ouvidos: "Dá uma chance pra ele... Tão boa pessoa, cheio de boas intenções, olha só que gracinha, envia flores, liga para dar bom dia, envia sms de boa noite, manda entregar água de côco na sua casa porque alguém contou que você estava com dengue." E aí passam-se dois meses, três meses, e elas já começam mesmo é a berrar: "Você é burra! Dispensa quem faz tudo por você! Depois não reclama, quando perder vai dar valor!" Quem nunca passou por uma situação dessas?  As amigas, o mundo, todas as constelações, fadas, gnomos e duendes sabem que seria tão mais fácil dar uma chance ao rapaz à la Roberto Carlos, mas quem avisa isso ao coração? Como disse Vinícius de Moraes "A hora do sim é um descuido do não."
E aí você esconde das amigas e do resto do universo que não, definitivamente você não vai dar essa chance, porque... porque... porque... Não há "porque" disponível no mercado para esse tipo de situação. Nada é racional quando o assunto é amor.  Ao coração não importa se há quilômetros de distância, de dificuldades e de impedimentos. Ele segue batendo indiferente  às inerentes complicações de um "amor complicado". Parece que posso vê-lo, calmamente, sentado dentro do peito em uma confortável almofada, "lixando às unhas" enquanto o "circo pega fogo" aqui do lado de fora... Posso ouvir seu pensamento "sinto muito minha querida, amo à priori, ou seja, independente da larga experiência do mundo, amo porque amo, o resto é problema seu." É assim, megalomaníaco e egocêntrico esse coração. Acha que pode tudo, ainda mais quando sente o outro coração do lado de lá na mesma sintonia, e aí... Fazer o que? Há escolha, claro que há. Difícil, mas possível. Diga não, siga a razão e, de quebra ainda terá o cara da música do RC, é só ligar para ele e pedir que venha e...   passar o resto da vida com o coração batendo bem devagar enfadonho dentro do peito. 
Eu preciso de sobressaltos.
Como lindamente escreveu Clarice Lispector: "Mas há a vida que há para ser vivida, há o amor. Há o amor. Que é para ser vivido até a última gota. Sem medo. Não mata."




domingo, 7 de abril de 2013

É preciso dignidade para aceitar que amor não se negocia.


Fui orientar minha afilhada, de 10 anos, a fazer uma poesia cujo tema era "Esperança", e enquanto ia fazendo perguntas acerca do tema para que ela fosse coordenando suas idéias, minha filha, de 8 anos, que ficou ao lado, participando, voltou-se para mim e disse "Mãe, esperança pode ser quando a gente quer que pai da gente não vai embora?" Tive míseros segundos para retornar à Terra e responder-lhe que esperança é esperar algo, já sabendo o quanto é improvável que aconteça. E não tive coragem de lhe dizer que muitas vezes era mesmo impossível que acontecesse, como por exemplo, a volta do pai.
Meu domingo transcorria em paz até o momento em que minha filha sussurrou aos meus ouvidos, seu sofrimento. Se eu não sabia dele? Sim, mas a vida fica mais leve quando não estamos vendo algo que gostaríamos que não acontecesse. 
Isso me remete à minha separação, que esteve perto de uma "hecatombe nuclear". Um casamento de 12 anos e uma filha, frutos de uma relação de cumplicidade, paixão e amizade. Jamais imaginei que isso aconteceria conosco e fui apresentada ao famoso "para sempre, sempre acaba". Me vitimizei ao máximo, dificultando o que já seria naturalmente difícil. Eu não queria me separar. Ele não podia fazer aquilo comigo. E os nossos planos? E eu insistia. E o tanto que você dizia me amar? E ele, penalizado perante minha recusa em aceitar o fim, ficava. A idéia fixa de que não poderíamos nos separar me cegou, e eu sempre tão lúcida e coerente, perdi, por um período, o meu bom senso. E não notava as evidências que caiam à minha frente torrencialmente. Mas como enxergar quando não se quer ver?  E, agarrando ao pouco de lucidez que me restava, eu tentava me convencer de enxergar o óbvio - ele tinha outra. Tudo eram suposições, e ele dizia que me amava, e custei a aceitar que palavras o vento leva... E as atitudes eram absurdamente diferentes daquelas de antes. Eu tinha o parâmetro que precisava - ele não era mais o mesmo - o que mais eu queria? E perguntava se tinha outra mulher e ele negava, claro. E eu via o quanto era difícil para ele. Sim, ele também sofria. Confesso que eu poderia ter facilitado as coisas, afinal, para que torturá-lo com a pergunta: "você ama outra?", se as atitudes dele demonstravam que ele não mais nutria por mim, o amor que afirmava ter? E eu seguia implorando pela confirmação daquilo que, acreditava que seria a minha libertação, em detrimento do inevitável rancor que a seguiria. Um dia, tomei um tombo que teve o poder de me lesionar o pescoço e me sacudir por dentro. Enfim, sai do sono profundo e resolvi abrir meus olhos e ver. Entendi ali o que sempre preguei - não se perde o que não se tem. A dor diminuiu e entendi que meu amor-próprio estava na contra mão da minha insistência por manter aquela relação, a qualquer custo. Tinha virado posse, a posse que tanto abomino. Tirei a máscara, lancei mão da minha frontalidade abafada pelos últimos acontecimentos, sai da postura de vítima e percorri o caminho que me traria a resposta que ele jamais me daria. Sim, ele já amava outra. A raiva foi descomunal, como eu já previa. Eu queria entender em que momento aquilo aconteceu, onde eu tive culpa, o que poderia ter sido feito diferente. Eu o odiei pelas promessas que me fez, pelas juras de amor eternas, pelos planos para nosso futuro, e, por alguns segundos, em meio àquele momento de guerra, vi nos olhos dele a culpa pelo meu sofrimento, e entendi que bastava mais um pouco para que ele ficasse. Mas seria por culpa, não por amor. Confesso que por segundos pensei em aceitar assim mesmo, mas meu amor próprio, minha auto estima, meu respeito pelo amor, e até mesmo minha solidariedade falaram mais alto, afinal, eu queria amor e não piedade, e ele, por sua vez, tinha direito de viver ao lado de quem passara a amar. Seria desumano condená-lo a mim, somente porque um dia ele me fez promessas, que no momento, eram verdadeiras, tanto eram que eu acreditei. 
Mas o tempo passou, a raiva também, amo, sou amada, ele vive seu amor, e a vida segue seu curso normal, sem prisões e nem prisioneiros. Quando olho para trás tenho orgulho de mim, da minha capacidade de superação, de força e coragem, sentimentos essenciais para que eu me libertasse e, conseqüentemente, libertasse o outro. É preciso dignidade para aceitar que amor não se negocia. Eu tive. E é isso que me fortalece ao presenciar a dor da minha filha pela ausência do pai - a certeza de que estava determinado que fosse assim, e me dá serenidade para respondê-la que junto com a esperança, é preciso vir a consciência de que há lugares onde não se cabe o sentimento de esperança, e uma delas é na obtenção ou preservação do amor do outro, pois esse jogo de "sou amada aqui, amo ali, deixei de amar, amei aqui, deixei de ser amada, fui amada lá", faz parte do inegociável destino. Porque amor, esse, jamais se negocia.


sexta-feira, 5 de abril de 2013

O risco de apostar, de novo, no velho

Eu sou descrente de que possa haver sucesso ao investir, novamente, em um mesmo relacionamento. É uma expectativa ainda maior, e como consequência uma frustração gigantesca. Claro que isso não é impossível, mas acho improvável o recomeço entre casais. Propostas, esperanças e expectativas - o novo dentro do velho. Defendo a busca incansável pela felicidade. Acredito, e muito, que as pessoas mudam, e quando essas não mudam temos a chance de mudar a forma como as enxergamos. Tudo na vida é uma questão de perspectiva. Casais que não deram certo podem e devem se dar a chance de um novo começo, só que com outros parceiros. 
Se hipoteticamente ocorresse uma transformação de 180º, mais que o suficiente para fazer com que aquela velha relação, a partir de então, desse certo, seria possível queimar na fogueira, as lembranças, as mágoas e o receio de enfrentar os mesmo sofrimentos? Ocorre que mesmo que as pessoas se transformassem, os fatos que elas protagonizaram são atos já consumados. Enfim, a dor já doeu. E esses "atos" precisariam, antes de tudo, serem aceitos, relevados e... principalmente, esquecidos. Mas o coração que tem memória de elefante fica “gritando” que está ali, vivo, pulsando, quando deveria estar quieto... E sente dor e quase pula fora do peito quando as lembranças ruins do que aconteceu voltam sem pedir licença -   "E aquele dia que ele mentiu que ia ali e foi lá?" "E o dia em que descobri a  traição, e os vi juntos na porta da academia?" "Nunca podia me receber em horário de expediente, mas  quando me fiz passar  por outra, disse à secretária que eu entrasse." 
Quando o parceiro é outro, tudo isso pode acontecer também, aliás, um dia sempre acontece, pois é normal que as lembranças de relacionamentos passados assombrem - vem o medo de sofrer, de ser traída , de ouvir mentiras. Mas quando a relação não é mais com "aquele" que foi o protagonista daquelas dores, a diferença é que, apesar do temores, quando você olhar para o lado, vai estar de mãos dadas com a esperança de algo novo e diferente, e não com aquele passado, que mesmo querendo ser um novo presente, está carregado de lembranças.
O risco de apostar, de novo, no velho é muito alto.Construir é diferente de consertar. Reconstruir só se for a si mesmo.Certezas não existem, mas existem caminhos mais prováveis. E, certamente colar cacos de relações desgastadas, não pelo tempo(porque o tempo tem poder de desgastar cores, não amores), mas pelas frustrações e decepções é um caminho direto para se deparar novamente com o fracasso daquela mesma relação que, no fundo,  já sabíamos que tinha chegado ao fim, porque o coração nunca se engana... e Cazuza canta o que sabemos sem querer saber: muitas vezes  "as ideias não correspondem aos fatos..."

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Que atire a primeira pedra, quem puder...

Muitos casais, em detrimento dos inevitáveis problemas do dia a dia,  continuam felizes após muitos anos de união. Os filhos, já  adolescentes, lhes permitem, novamente, mais tempo para estar junto. Foi assim com Lizandra,   que escreveu ao blog, 48 anos, casada há 18 anos com um homem tranqüilo, e, segundo ela, excelente pai e marido. Ela, por sua vez, tinha prazer em cuidar da casa, dos filhos e dele. Separar sua roupa e deixar junto à toalha para quando saísse do banho. Fazer os bolos e tortas que ele adora e cafuné para ele dormir. Ele por sua vez, nunca permitiu que ela acordasse de madrugada quando as crianças eram bebês, pois à noite, era a sua vez de colaborar. Todas as tardes ela o aguardava chegar do trabalho para que lanchassem juntos. Uma mãe e esposa zelosa, e ele sempre lhe dizia da imensa admiração pela forma com que ela conduzia a família. Só tinha um problema. Ele nunca a satisfez sexualmente. E ela sofria por isso. Tentou conversar com ele algumas vezes, sugeriu que visitassem um médico, que descartando qualquer problema físico, os encaminhou para um terapeuta de casal que nunca foram. Ele não quis. E ela então, sublimou. Ou melhor, tentou e conseguiu por mais de uma década deixar esse “assunto” de lado.
Os anos passaram, os filhos cresceram e ela voltou a ficar sozinha com o marido. Com o tempo mais ocioso, a falta de uma vida sexual satisfatória voltou a perturbá-la. Faziam sexo cada vez mais raramente, e ela, sincera, ainda insistia para que procurassem aquele terapeuta sugerido anos atrás. Explicava-o que sofria com essa falta, inclusive fisicamente, com enxaqueca e insônia constantes. Mas ele não cedeu aos seus apelos. Depois de muito tentar uma solução a dois, tomou uma custosa decisão  - alugou um apartamento, para levar amantes, nunca fixos e sempre desconhecidos.
Um dia, um colega de trabalho do marido, lhe disse sobre esse “boato”, e ele fingiu que não ouviu. A esposa desse amigo contou a ela, e perguntou-lhe se ela não temia que os filhos, já adultos, descobrissem como ela estava conduzindo sua vida. Ela respondeu que não. Pois sempre se manteve fiel ao que acreditou. E principalmente, sabia que o marido era feliz ao seu lado, e que seria assim, até o último minuto de suas vidas. Segundo ela, sua consciência não pesava, pois em primeiro lugar, sempre estiveram os filhos e o marido, e o sexo, em segundo.
Bom, Lizandra, você termina seu email me perguntando o que eu acho. Acho que traição, como tudo na vida, é relativo. Como condenar uma mulher que dedicou sua vida à família, mas infeliz sexualmente, “ajeitou” uma solução como pode? Sua postura foi tipicamente masculina  – separar amor de sexo.  Não é ideal que seja assim. Vocês não vivem uma relação de mentira (a meu ver), mas também não vivem uma relação inteira. A diferença é que ambos são leais aos seus propósitos – você doa-se a família com alegria, responsabilidade e prazer – ele, em contrapartida, sente-se amado, cuidado e em paz. Quando você lhe pediu que buscassem juntos ajuda para o problema que a afligia, ou quando o colega de trabalho insinuou algo, ele não lhe deu ouvidos. Ele foi enganado? Não...
Você poderia tê-lo deixado, seria talvez o mais sensato. Talvez. Mas como você afirmou, sexo vinha depois do marido e filhos. Então... É uma situação muito delicada, mas não cabe julgamento.
O ideal de um casal é que a parceria aconteça na cama e fora dela. No caso de vocês  não aconteceu na cama. Tenho absoluta certeza de que se você tivesse escolha (é, as vezes não temos), você agiria de outro modo. 
Parabéns pela bela família!


domingo, 31 de março de 2013

Carta para Romeu e Julieta



Cara  Romeu e Julieta,
apesar dos mais de 400 anos que nos separam, percebo-os tão atuais que decidi reportar-me a vocês no intuito de compreender como foi protagonizar um amor de dimensões incalculáveis e lealdade indiscutível, evidenciado nos diálogos, entre ambos. Diálogos esses, de extrema exuberância com comoventes versos, eternizados pelo próprio triunfo de uma tragédia onde morrem os amantes, mas não o amor. Dizem por aqui que há muita Julieta se matando pelo Romeu errado, no que discordo, e creio, terei  total apoio. Em 1595 você era apenas uma garota, Romeu apenas um rapaz, morreram para não deixar morrer o amor,  que era dotado de óbvia reciprocidade, e que, mesmo não podendo ser vivenciado, foi palpável e não simplesmente idealizado. Portanto desrespeitoso à memória de vocês, que denominem mulheres em busca de "adoção", obsessivas e obcecadas por "Julietas", e homens, seja lá de que natureza for, de "Romeus". A forma não pode sobrepujar a essência. Como você mesma disse a Romeu: "De que vale um nome, se o que chamamos rosa, sob outra designação teria igual perfume?" Vocês para sempre representarão o  amor, mas entendamos bem - o casal do amor - e não essas caricaturas carentes que derramam sobre o objeto que creem amar, toda a responsabilidade pela sua infelicidade, negando-se a perceber com a alma, a veracidade desse sentimento que, naturalmente, emana do outro, independente de exigências e cobranças. Estranho esse séc XXI não é? Imagino como vocês dois sobreviveriam por aqui... Os casais desconhecem o amor. Banalizam ou dramatizam esse sentimento. Não vejo ninguém que apenas viva e sinta, todos tentam enquadrá-lo. Fico imaginando se algum dia de suas breves vidas, vocês perderam tempo tentando entender o amor, ao invés de simplesmente senti-lo.  Há uma frase de um cantor da atualidade que diz :"Assim que o amor entrou no meio, o meio virou amor", não seria assim? Em minha concepção é exatamente isso.
Certamente você e Romeu queriam ter vivenciado esse amor, por anos e anos - acordar juntos, passear pelos jardins, fazer amor, não é? Não lhes foi possível, e nem assim minha percepção sempre tão aguçada, foi capaz de notar uma palavra de "puro drama" em suas narrativas, muito pelo contrário. Percebe-se sim, palavras de puro enlevo e, em detrimento das dificuldades, dotadas da leveza que todo amor deve conter. Tão diferente do que vemos hoje em dia - onde uma dramatização que beira ao ridículo permeia  relações que foram simplesmente de afeto, desejo, momentos, mas jamais de amor, porque amor é um sentimento de mão dupla, que não termina, e caso termine, é porque foi apenas um engano.
Entendi que vocês traziam dentro de si um dilema: ou embarcavam no amor sem medir as consequências, ou voltavam à realidade. Como o amor e a crua realidade não combinam, a morte foi a melhor solução. Sabe Julieta, hoje em dia a moda para um amor que terminou (porque não era amor), é culpar o outro ou as situações externas. Vocês dois enfrentaram um drama político, social e até mesmo religioso que lhes impediram de viver o amor, mas não de se amar. Porque quando é amor, nada é empecilho. Embarcaram juntos para uma morte em nome desse amor. Hoje em dia isso não exite. Muitos continuam se matando em nome do "amor", mas não é verdade. Matam-se em nome da posse. "O outro não me quer? Me mato". Individualismo é contrário ao amor. Já que é amor, óbvio então que você me queira na mesma proporção em que eu te quero, então, "bora" morrer juntos, na crença de viver esse amor em outra dimensão - uma loucura aceita. Mas já que não é amor, que você não me quer, vou morrer em vida, enterrar meu futuro, viver infeliz para sempre? Ou seja, me enterro por alguém que não me ama? Isso pode ser denominado amor, caro Romeu? Entendo como sendo insanidade, projeção, deslealdade a si mesma, sem contar, a crueldade com o outro que terá que carregar sobre os ombros, o peso da infelicidade que aquele que diz lhe amar, o imputa, por ser mais fácil do que assumir que foi tudo apenas ilusão. E a pergunta final para encerrar essa carta: sinceramente, caros Romeu e Julieta, vocês ousariam sequer pensar em se matar  se duvidassem do amor que sentiam um pelo outro? E então, acham possível que exista essa máxima de  "amar sem ser amado"? Pois partindo do princípio que amor é energia, e que energia é troca, isso torna-se impossível não é? E isso vem desde o séc. XVI... 
Bom, meus caros, infelizmente é essa a noção do amor dos tempos atuais. "Pobres criaturas", creio que sejam isso o que vocês estão pensando nesse instante.

Julieta – Que satisfação podes ter esta noite?
Romeu – A troca com o meu de teu fiel juramento de amor.
Julieta – Já te entreguei o meu, antes que pedisses e quisera fazer-te de novo meu juramento.
Romeu – Queria tomá-lo de mim?
Julieta – Para ser generosa e entregar-to outra vez. Só aspiro à coisa que possuo. Minha bondade é tão ilimitada quanto o mar, e tão profundo como este é meu amor. Quanto mais te dou, mais tenho, pois ambos são infinitos.



sábado, 30 de março de 2013

Nietzsche ou uma mão sobre a minha?


E a história do amor permanece. Um sentimento que carrega infinitas definições. Nunca acatei nenhuma delas, pela impossibilidade, a meu ver, de enquadrar qualquer sentimento. 
Observo tudo, é da minha natureza, mais aguçada ainda, pela formação em filosofia. Impossível  a mim não observar, analisar, raciocinar com justeza em busca de uma lógica. Já cometi a imprudência de tentar catalogar o amor. Sem êxito. Quando eu pensava "Yes! é isso". Vinha a chuva e molhava minha certeza. Consolava-me saber que a chuva não molhava só a mim. 
Não tenho uma visão cartesiana linear da vida, e confesso que tenho um olhar invulgar sobre as relações de amor. Até porque eu tenho uma singularidade de amar o amor, antes mesmo da pessoa. Nunca soube dizer se isso é bom ou ruim. Egoísta, talvez. 
Há muito tempo li uma frase de Quintana "O amor só é lindo quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser". Em segundos escorreguei no arco íris e cheguei ao pote de ouro... Acabava de achar o significado do meu amor. Do amor que eu amo. 
Enquanto eu crescia por dentro em uma velocidade desproporcional aos meus centímetros, eu imaginava que amaria àquele que roubasse uma camélia do pé, e a colocasse, delicadamente, atrás da minha orelha. Era essa minha terna fantasia adolescente. Com o tempo fui entendendo que os fatos são maiores que os atos, e que a camélia poderia continuar na árvore. Quando meus sonhos eram inversos à vida que se apresentava à minha volta, eu imaginava que me sentiria amada ao me enxergar limpidamente, dentro da retina do outro. Também não foi assim. E o tempo passou. E continuei fiel ao amor, e mesmo nos vários lutos que atravessei, antes de enterrar os que me foram caros um dia, eu arrancava o amor com as minhas mãos, ainda sem esperanças, naquele momento. E eu, então, o limpava e guardava-o novamente em algum canto dentro de mim. Nunca desisti dele. Enterrá-lo significava enterrar-me. 
Sempre que o chão fugia sob meus pés, as cores iam sumindo e a melodia desafinando, eu abria a cortina e deixava o sol entrar. Não podia desistir, afinal, o que eu tinha de meu, que não o amor que eu sempre amei? Segui com ele. 
Arrisco-me a dizer que ajudei alguns afetos a, senão se transformar, pelo menos a descobrir o melhor que tinham em si. Acho que não amei, mas ensaiei o amor. Nunca me senti transformada, mesmo desconfiando que fui sim, muito amada. 
Depois da camélia, muitos foram meus ideais de amor, até que no pote do arco íris descobri que o amor que eu amo, está no garimpo do ouro do outro que há em mim. Mas fantasmas rondam... E se ele não souber quem é Nietzsche, nunca tiver lido Fernando Pessoa? E se não souber discutir sobre fé e razão, não divagar sobre a alma? Por longo tempo eu disse NÃO! Absolutamente não! Preciso beber o intelecto do outro, conversar depois de fazer amor, discutir depois de fechar a última página do livro. Mas tenho presenciado coisas do amor que têm me obrigado a rever meus conceitos.  Será que não poderia ser feliz com um abraço demorado e um cigarro acesso depois de fazer amor? Deixaria para conversar sobre Nietzsche no dia seguinte, com algum colega. Não seria melhor fechar a última página do livro e não conversar nada, mas olhar para o lado e ter uma mão que segura a minha?  Será que não posso tudo isso, se aquele que estiver ao meu lado puder me ajudar para que eu me transforme no melhor de mim? Mesmo que ele nunca tenha ouvido falar em evolução da alma e nem imagine o que seja nível de consciência? Será que há coerência possível nesse universo dos sentimentos?

quarta-feira, 20 de março de 2013

Eu amo o amor


E eu passei a vida agarrada a ideia do amor. E amava. Amava o amor. Ou melhor amo. O amor. Assim mesmo. Apenas o amor. O significado do amor para mim. Muitas vezes (para falar a verdade, na maioria delas) estava me relacionando com alguém, talvez até sendo feliz, mas ainda assim, só amava mesmo aquele amor que idealizara... (seria isso uma forma de infidelidade?). O portador desse amor que eu idealizei tinha algumas particularidades, claro, não fosse assim, não teria sido idealizado. A primeira delas é respeitar o amor. Entendendo-o sublime. Reverenciando-o, como eu. Depois a incondicionalidade  - credo, cor, sexo ou raça, profissão, limite do cartão de crédito, erros, acertos, tropeços, anseios e suspiros. E, finalmente, aquele olhar ansioso de quem busca evoluir, superando o que for possível dentro dessa nossa quase implacável humanidade. Esse é o fiel depositário do amor que eu amo. Para quem eu me volto, sem medir esforços, tempo, distância. Incondicionalmente. Inegociável mesmo é apenas a reciprocidade do sentimento. Só isso. Se entendo que amor é energia, é na troca que ele se renova e se fortalece. Tornam-se irrelevante as demonstrações de afeto, de gestos, de mimos e manhas, de trocas de sms e emails, de flores enviadas e recebidas, pois não me refiro a esforços e nem a doação de tempo ou dinheiro. Afinal, o amor limita o ego, caso contrário, ainda não é amor.Tudo isso é tão pouco quando tudo flui de dentro. O lado de fora quase nem existe. O outro quase inexiste, pois ele é apenas a projeção do seu amor, ouvi isso outro dia, e veio ao encontro do que penso. Pode acontecer daquele que guarda em si, o amor que amo tenha seu olhar voltado precisamente para o norte ou para o sul, enquanto eu siga navegando na vida ao léo, sem bússula e sem guias. (Como sou). Mas será imprescindível que almeje, um dia, olhar junto comigo para a mesma direção, porque eu jamais saberia deixar esse amor olhando perdidamente para o nada, enquanto eu, abençoadamente,  estivesse me deliciando com o nascer do sol sob uma paz que quase nunca me deixa. O amor mora na esperança de tornar-se melhor - e, como consequência, um outro também melhor e maior. É assim - uma extensão. Um dois em um. 

quinta-feira, 14 de março de 2013

Ritual do casamento



Muitas pessoas consideram importante legalizar a relação oficialmente através do casamento. Outros não. Isso angustia algumas mulheres (o índice é muito maior entre elas do que entre eles), a ponto de colocar um bom relacionamento em risco, quando ambos não dão a mesma prioridade a esse fato. Mas quantos, entre os que defendem essa ideia, já se perguntaram por que o ato de oficializar a união lhe é tão significativo? Representa o que?
Para que ir ao cartório, assinar papéis, ter testemunhas, se essa não é a vontade de ambos, principalmente na atualidade, onde a lei garante direitos à união estável?
Eu gosto dos ritos e seu significados que demarcam, simbolicamente, fins e começos.  Para mim só por isso se justificam os milenares ritos de passagem, como batizado, 15 anos, casamento, e até funeral. 
As coisas só possuem o significado que lhes atribuímos. Se esses rituais não são realizados de forma consciente, ficam ocos, perdem a razão que é demarcar uma nova etapa da vida. Não é inteligente marchar sempre de acordo com as convenções. Repetindo atitudes, abrindo mão do raciocínio do qual somos dotados. Seguir padrões pré-estabelecidos sem questionar não é viver, é reproduzir a existência. Não somos robôs, apesar de estarmos cada dia mais robotizados.
Se o ritual de consagrar a união matrimonial pela lei, não se justifica para o casal, então não vale à pena o desgaste da relação por algo vazio de sentido. Essa compreensão permite outro enfoque na questão e a partir disso, decisões conscientes poderão ser tomadas a dois. 
A união de dois corações oficializa-se através do amor, do carinho, do companheirismo, do respeito, da vontade livre de manterem-se juntos.
Por mais que dezenas de papéis sejam assinados, mil testemunhas compareçam, padres, bispos e papas abençoem, tudo isso só será suficiente para oficializar uma união legítima, mas completamente insignificante para selar uniões de afeto, pois não “falam” a linguagem do coração, do toque, dos sonhos comuns.  
O amor e a comunhão, libertos de culpa, para decidir o tipo de vida que ambos almejam, valerão sempre mais do que assinaturas, bençãos e testemunhas. 
O caminho mais provável para o sucesso da relação é que ambos consigam olhar para a mesma direção, o que independe de legitimidade.
Porta retratos, álbuns e vídeos de casamentos congelam um momento de celebração, mas só têm sentido quando continuam representado uma vida vivida do lado de fora.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Amor (e dissabor) virtual


Conhecer pessoas na internet é um risco, o mesmo que envolve conhecer pessoas em qualquer outro lugar. Pessoas são sempre pessoas.  Carregam fardos, enfrentam desafios, buscam conquistar seus objetivos, e entre eles está, quase sempre, encontrar o amor. É fácil conhecer pessoas difícil é reconhecê-las, esteja ela no bar da esquina ou na internet. A grande diferença é que nos relacionamentos virtuais há mais conversa, e assim, mais promessas são feitas, um maior envolvimento ocorre e mais subsídio se consegue para “atacar” a presa (se esse é o objetivo), pois quando o encontro acontece, já existirá entre eles, uma intimidade e confiança mais efetiva do que o outro casal do bar da esquina. Pode ser que tudo saia errado e a pessoa não seja aquela que você imaginou de início, mas isso não é prerrogativa do relacionamento virtual. Apostas erradas são feitas em qualquer lugar. Essa busca sempre envolverá risco, pois relacionar-se com o outro é um ato de entrega, onde a precaução costuma ser deixada de lado, estejam longe ou perto. A verdade é que as desilusões que marcam os relacionamentos virtuais, talvez com maior frequência que os outros encontros, têm como maior responsável, o fator carência - a grande doença do século. Falta de tempo, busca desenfreada por dinheiro, status, projeção no mercado de trabalho. Tudo isso coisifica o ser humano, tornando-o frívolo, preocupado em cumprir mil tarefas, esquecendo-se de quem ele é, do que está fazendo com seu tempo, com seus sonhos e com seus amores, geralmente perdidos.  A solidão assola a humanidade, não falo de estar sozinho, falo de sentir-se sozinho mesmo estando ao lado de um companheiro, ou em meio à multidão. As pessoas perderam o hábito de ouvir e serem ouvidas. Até que um dia, encontram quem as escute, geralmente em uma noite solitária, em que, de frente para o computador busca-se companhia,  e aí, sua carência já grita tão alto, que as deixam surdas para as evidências, tornando-as incapazes de perceber tolas seduções. Fato esse que seria tão evidente, se elas estivessem inteiras, supridas em suas emoções. E aí, o resultado disso, são pessoas usurpadas em seus sonhos, mutiladas em suas fantasias, feridas na alma. 
Eu sou uma defensora dos relacionamentos virtuais. Onde as pessoas têm mais coragem de falar, onde o outro te escuta sem pressa e você fica literalmente a dois, podendo apenas ser. A questão é que antes de sair em busca de uma relação de amor é preciso amar-se. Estar inteira é a única maneira de escapar de ser mais uma tão falada "vítima do amor virtual", produzido pela infelicidade, carência, solidão, baixa estima. Só estamos preparados para entrar em uma relação virtual, quando temos uma vida social, e outros pretendentes de "carne e osso"  e, ainda assim, o coração insiste em bater mais rápido quando escuta um simples aviso de um novo e.mail em sua cx postal. 
Qualquer relação a dois para ser saudável, precisa ser decorrente de uma opção, jamais da falta de opção, e quando o relacionamento é virtual, em minha opinião, o cuidado precisa ser redobrado, porque o terreno já é naturalmente propício à ilusão.  

sexta-feira, 8 de março de 2013

Algumas vezes rã, noutras escorpião


A rã e o escorpião é uma fábula escrita por Esopo no século VI aC. Eu era menina a primeira vez que a ouvi e,  meu coração puro, não me permitia entender como alguém poderia causar mal a uma pessoa que estava apenas lhe auxiliando.  Em várias ocasiões da minha vida, fiz dessa fábula uma reflexão para, finalmente, agora entender que uma ação depende de algo muito mais intenso do que simplesmente a vontade ou a força dessa vontade.
Segundo o conto houve um incêndio devastador na floresta, matando centenas de animais, muitos deles carbonizados, outros afogados ao pularem no rio no afã de salvarem suas vidas. O escorpião avaliou rapidamente os pós e contras enquanto olhava várias rãs que agilmente atravessavam as águas do rio, e, decidiu, então, propor a uma delas que salvasse sua vida. A rã,  temendo pela sua existência explicou os motivos óbvios pelo qual temia aceitar aquela proposta, afinal, o habitual é que o escorpião a picasse e ambos fossem levados ao óbito.(A tal da evidência). O escorpião rebateu seu argumento, dizendo que se estava justamente pedindo ajuda para se salvar, como poderia querer matá-la se, invariavelmente, sem ela para lhe levar, ele morreria afogado? (Intenção X Impulso) Enfim, a rã se convenceu, afinal, não haveria mesmo razões para que o escorpião implorasse pela sua ajuda se tivesse o intuito de matá-la.(Vemos o outro através do que temos dentro de nós). Tratado o acordo, o aracnídeo subiu nas costas da rã e navegou tranquilamente pelas águas por um período... de repente, o contato com a pela macia do corpo de sua salvadora, inquietou o escorpião que tentou se distrair observando a rã nadando, a água e a outra margem do rio, onde finalmente estaria seguro. Mas, algo deu errado "em seus planos", e em um impulso fora de controle, ergueu sua calda e picou a rã, morrendo os dois afogados. E ele estava à beira de ser salvo...
E assim somos... portadores de gestos irracionais, impulsos descontrolados, atitudes impensadas... tudo parece sem fundamento, apenas ações julgadas como levianas, irresponsáveis, desumanas, mas não é assim... A maioria dessa atitudes são amparadas por um inócuo instinto, ou regidos por dogmas e crenças não questionadas, e também por uma série de heranças, e como toda ela, inerente. Mas o inerente pode ser negociável. Ou não? Bom, o que me alegra nessa fábula é a certeza de que a essência é maior que tudo, não fosse isso, o escorpião não teria matado a rã. Portanto, resta uma grande esperança para as boas essências humanas, confirmando que, o modo como agimos, nem sempre define quem somos, e isso é um alento. 
A arte repete a vida, e essa fábula está aí em todo canto.  É muito difícil escolher um caminho a seguir, não sei quando fui escorpião, mas sei as vezes em que fui rã (mas nem por isso vítima). Creio que ainda desempenharei algumas vezes esses papéis durante a minha vida, e talvez o correto, fosse desempenhar o papel da rã, apenas uma vez, para nunca mais se permitir repeti-lo, afinal, para que serve a razão? Sinceramente, ainda não descobri... Só sei que ainda serei rã dezenas de vezes, primeiro porque não deixo um semelhante (por menos semelhante que seja) pelo meio do caminho se posso acolhê-lo, e segundo porque só se vive, vivendo.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Quem disse que felicidade segue algum padrão?



Como posso ser feliz? Pilhas de livros de auto-ajuda. Sempre em vão.
Felicidade não é um bem que vamos conquistar se cumprirmos algumas regrinhas básicas. Serão felizes os mais determinados, ou aqueles que meditam, ou os que não bebem, não fumam, não comem carne, a esses grupos, o reino da paz, da harmonia, da sonhada felicidade. Nada disso. E aí você casa com o amor da sua vida, têm filhos saudáveis, sua carreira vai muito bem, obrigada, fez aquela plástica de nariz e a lipoescultura, comprou aquele carro maravilhoso e ainda viajou a dois para esquiar em Aspen... (bom, eu ficaria com o amor da minha vida, filhos saudáveis, carreira, uma biblioteca inimaginável, a compra de um sítio para construção de um asilo modelo, e uma viagem a dois para qualquer lugar que eu ouvisse os grilos e  visse a lua, enfim... felicidade não tem molde). Bom, prioridades acertadas: sou feliz! 
E instala-se a terrível decepção. Quem disse que felicidade segue algum padrão? E caso seguisse, quem ditaria esse padrão? Tudo é absurdamente relativo. A tal almejada felicidade não "vinga" por uma condição humana. Somos naturalmente faltosos de algo que não podemos nomear por uma questão quase estrutural - incapacidade de silenciar-se, ouvir-se, sanar-se. Quem não sabe do que precisa não tem como buscar. É isso. As previsões da vida plena de felicidade falham porque não conhecemos nossas reais necessidades, e nos guiamos pelos desejos, daí vem a sensação de falta. Mas objetivamente tudo está suprido, não há falta...  Eu até posso ver a lua do vão da janela enquanto leio Fernando Pessoa, ou...prioridades respeitadas, eu até tomei vinho em Paris enquanto olhava vitrines... E então... Quem vai levar a culpa por essa sensação de falha, de falta, de ausência? Para cada época uma explicação - desde Platão, passando por Niesztche, Gramsci, chegando a Gikovate ou Shinyashiki, e o final é sempre o mesmo - o coração funciona muito além da razão. Felicidade não é uma conquista dos merecedores. Ela simplesmente é um estado, sei lá como ou porque acontece. E, muitas vezes, quando aquela felicidade nos acomete e o coração fica quente, sinalizando que está absurdamente vivo dentro do peito, nos questionamos “quem é essa pessoa que aqui está?” É isso mesmo... Dá-se uma crise de identidade ao vivenciar esse estado de plenitude... Aceitamos a infelicidade muito bem, nos condenamos a seres não merecedores, nos punimos e quando a felicidade chega sem aviso, entramos em uma crise de identidade e corremos o risco de que ela se vá novamente. Para ser feliz aí vai uma dica que li e gostei: “Agüente nem que seja por um instante o amor que não se compreende, que explode qualquer cenário, que nos leva a habitar o mais forte que nós mesmos".

Para mim, Vinicius de Moraes dá a definição quase perfeita - A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. É preciso encontrar as coisas certas da vida, para que ela tenha o sentido que se deseja. Assim, a escolha de uma profissão também é a arte do encontro, porque a vida só adquire vida, quando a gente empresta a nossa vida, para o resto da vida.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

A outra parte de mim


Uma sensação estranha de não pertencimento tem preenchido um vazio que eu não tinha. Vazio nem sei de quê. Ou seria nem sei porque? Nunca tive medo de mim. Sempre enfrentei meus fantasmas de luz acessa. Enquanto o mundo fazia barulho lá fora, eu me aquietava por dentro. Fugir sem saber para onde ia, já me levou a lugares piores que eu mesma. Não me arrisco mais. Tenho opção? Passei do tempo. Ou o tempo passou... Tem tempo para esperar? O melhor lugar é perto de mim. Mas antes preciso saber onde estou. Onde estou?  Escuto o buzina do carro e me assusto. A música alta me desperta e tento retornar para mim. Ouço as vozes ao meu lado, conversas soltas, sorrisos que tentam me fazer sorrir. Vivo à parte da vida que vivo. Alheia. Alguém me busca incansavelmente e não me acha. Mas estou aqui, você me toca, e eu pareço evaporar. Absolutamente ausente de onde estou presente. Desculpe, mas nem eu sei onde estou. Devo estar em algum lugar. Tenho vivido em dois mundos, em um existo, a outro pertenço. Ouço o beijo estalado, mas não posso senti-lo.  Sentir está no mundo a qual pertenço. Mas que mundo é esse? Recebo propostas, mas não me convenço. Quero voltar para casa. Entro no carro e por um segundo escuto a música animada, enquanto no outro mundo que roubou meus sentidos, ouço Villa Lobos.  Tento me levar para casa, enquanto procuro a chave na bolsa e mais uma vez percebo que nem eu mesma sei de mim. Olho no espelho e me vejo - então aqui estou eu! Mas não estou. Mais uma noite que eu tento e não consigo. Me sobram sentimentos. Mas não posso senti-los. Preciso me trazer de volta a esse mundo onde existo. Há carruagens oferecendo para me buscar. Mas chegam sempre atrasadas. Não quero companhia que não seja a minha. Preciso da outra parte de mim. 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

"Encomendai o caso a Deus, Sancho"

Depois de me contar como se deu sua separação há 16 anos, quando o marido a abandonou com uma filha de três meses para ir viver com outra, eu lhe questionei de forma impulsivamente simplista (divergindo do que creio ser a vida) se naqueles 12 anos de relacionamento ela não percebeu que o marido era um mulherengo. E ela respondeu: "Mas ele não é mulherengo, ele apenas se apaixonou por outra." Fiquei surpresa com sua afirmação principalmente após ouvi-la narrar que passou os dois anos seguintes à separação agredindo-o  verbal e fisicamente - razão X emoção.  Quando somos magoados é preciso muita maturidade para não enquadrar o outro, condenando-o definitivamente. 
Na concepção dessa amiga, as pessoas  nascem infiéis, e morrerão assim. Eu não gosto de sentenças definitivas, é certo que todos temos tendências, mas basta motivação e o  padrão de comportamento poderá ser modificado. Somos seres inacabados, temos chance, e não fosse assim, de que valeria a vida? 
Convivi com a infidelidade  antes mesmo de perceber o mundo. Não entendia nada daquilo, mas sentia  o estrago dentro e fora de mim. Enquanto isso, eu crescia e desejava ter nascido longe daqueles telefonemas que tocavam de madrugada, longe das horas extras, longe das viagens de última hora, longe daquele mundo de invencionices. E eu, temendo me afogar nas intermináveis falsetas, me agarrava em minhas tábuas imaginárias que me levavam para a outra margem, onde o sol sempre nascia. Jurei vingar todos os homens. Nunca vinguei. Seria preciso coragem para ser o que eu não era. 
Apesar de, cada dia mais, acatar o determinismo que nos é imposto por diversos fatores, uma parte de mim defende, por experiência própria, que viver pede dedicação. Sobreviver é mais que viver, muito mais.   Somos compelidos, pelos padrões, a estagnar na caminhada. É preciso consciência  para não atrasar a evolução de todo o universo. Somos parte de uma engrenagem, somos responsáveis por nossa existência.  
"— Encomendai o caso a Deus, Sancho — tornou D. Quixote — que tudo se fará bem, e talvez melhor do que pensais, que não bole folha nas árvores sem a vontade de Deus." Mas ainda assim, é preciso empunhar nossas espadas. Creio que Ele anseie por nossa intervenção consciente, afinal, não é assim que educamos nossos filhos?
Sempre temi passar a vida estacionada no mesmo lugar, com os mesmos medos, os mesmos erros, os mesmos dias nublados. 
Eu não sei se, de fato, nascemos infiéis, mentirosos, manipuladores, etc, mas entre as pouquíssimas certezas que tenho na vida, está a de que ninguém está condenado a morrer tal qual nasceu.
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