
Cristi me escreveu um email gigante, (como tenho recebido vários) com um história sem reservas de emoções. Casou-se aos 20 anos, teve 4 filhos homens, criava-os e educava-os de perto, e acompanhava o marido, professor universitário, em seus raros compromissos sociais. Não enfrentava problemas financeiros, acha que nunca foi traída, e não havia briga em casa. Ele era um homem educado, frio e distante, e ela, infeliz. Sentia-se sozinha, carente, indevida. Os anos passaram e com eles a esperança de ser amada. Sentia falta do toque, do olho no olho, de beijo na boca e de sexo. Pensou em traí-lo várias vezes só para saciar seu desejo juvenil, mas faltou-lhe coragem. Acha que ele se saciava com as palestras, cursos e livros. Os anos passaram, os filhos cresceram e ela tinha a impressão que secara por dentro. Nem sonhava mais, como acontecia durante aqueles anos todos, em que imaginava como seria fazer amor com outro homem, beijar, namorar, passear. Eles apenas dormiam juntos, conversavam formalidades durante as refeições e faziam sexo uma vez por mês, talvez. Ela tinha 38 anos. No dia em que iam completar 18 anos de casados, ele faleceu.
Passaram-se os meses e ela voltou a estudar. Lá conheceu um colega de turma com quem se envolveu devagar. Tornaram-se amigos e confidentes, e um dia viajaram juntos. Aconteceu então o primeiro beijo, a primeira noite e ela se assustava quando sentia aquele abraço fora de hora durante a noite, aquele olhar durante o almoço, aquela mão segurando a sua enquanto caminhavam na rua. Sentiu-se a mulher mais feliz do mundo. Em casa, contou aos filhos, que acataram a decisão rápida da mãe de ir morar com outro homem. Foram todos apresentados, saíram juntos algumas vezes e logo mudaram-se para a casa dele. Outra surpresa -ele foi um pai em tempo integral para todos eles, os que ainda eram crianças, e os já adolescentes. Eram verdadeiros companheiros para tudo. E ela, estava vivendo um conto de fadas. Ele tinha um comércio e ela começou a trabalhar com ele. Viviam pelos cantos se agarrando. Eram completamente apaixonados, e ela, se sentia a mulher mais abençoada do mundo. Agradecia a Deus o dia todo. Eram companheiros, viviam grudados, tinham assunto as 24hs do dia, davam gargalhadas o tempo todo. Formavam uma verdadeira família.
Um dia, de madrugada, o telefone tocou - a loja havia pegado fogo. Perderam tudo. Começaram do zero. Ela segurou a barra com a pequena pensão que recebia, e ele foi trabalhar como representante da distribuidora da qual antes, era comprador. Mais difícil foi dormir sem ele, almoçar sem ele, acordar sem ele, que viajava quase a semana toda. Os filhos sentiram muito também. Passados uns meses, ela começou a notar que a relação dos dois estava diferente. Conversavam menos, riam menos, e ele que nunca dormia fora (mesmo que chegasse em casa de madrugada), começou a dizer-se cansado e a dormir algumas vezes fora. Isso era compreensível aos olhos dela. O que a fazia sofrer era a distância que ela notou que começou a existir entre eles. Tentou conversar, mas ele carinhosamente a abraçava, justificava qualquer diferença com o cansaço e ela logo se sentia segura em seu colo.
Um dia no fim da tarde, ela foi fazer-lhe uma surpresa, resolveu visitá-lo no escritório da firma que ficava em uma cidade vizinha, onde os representantes participavam de uma reunião semanal. Ao chegar lá notou que ele ficou desconcertado, mesmo assim, veio abraçá-la, apresentou-a a todos,e foi como sempre, muito atencioso. Mas algo estava diferente, e nem adiantava negar, ela o conhecia profundamente, eram quase a continuação um do outro. Foram para casa e ela perguntou apenas uma vez o que estava acontecendo. Ele disse que não conseguia esconder nada dela, e que por isso, ia falar, mesmo correndo o risco de ser incompreendido e de magoá-la. Contou-lhe, então, que estava se sentindo encantado por uma colega de trabalho. Que nada tinha acontecido entre eles, mas que era por isso que estava diferente, pensava nela e na possibilidade de tê-la, e se envergonhava disso. E que , naquele dia, ao ver a esposa entrar pela porta no escritório, certificou-se que era tudo fantasia , porque ele a amava demais! Ela não teve reação. Nem perguntou nada. "
Um pedaço de mim morreu ali, naquele minuto. Nunca vou entender. Não sei por onde ela entrou. Não percebi que tinha qualquer greta aberta. Ele era o meu príncipe encantado". Ela disse que sofreu mais com essa confissão, do que em todos os anos em que foi mal casada. Acredito. Quanto mais alto o vôo, maior o tombo. É assim mesmo. Perguntou minha opinião, se acho que deveria se separar.
Bom disse à ela a única coisa que senti: Para que o tirasse da posição de príncipe encantado, e o colocasse apenas na posição de marido, companheiro, amante. Ou seja, de uma pessoa importante, mas comum, como ela. Ninguém falha sozinho. A greta se abre porque os dois distraíram, ou porque a natureza humana é falha, ou porque não existe relação tão redonda, ou simplesmente porque príncipe encantando não permanece vivo por mais de algumas semanas. Mas dá para transformar tudo isso, e continuar a investir em uma relação que deixa evidente que é saudável, que vale à pena e que acima de tudo a faz feliz!
Bom Cristi, é isso, desça esse homem do pedestal que o colocou, humanize sua relação, tire-a da fantasia. Mas isso, minha amiga, só mesmo você pode decidir - se pode fechar essa porta e continuar com ele, ou se vai fechar a porta e abrir outra, sem ele. Deus ilumine sua escolha! Fique firme!